quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Oração a Trindade - Agostinho de Hipona


Oração à Trindade

Senhor nosso Deus, nós cremos em ti, Pai, Filho e Espírito Santo. Pois a Verdade não teria dito: Ide, batizai a todos os povos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28:19), se não fosses Trindade. Nem nos ordenarias que fôssemos batizados, ó Senhor nosso Deus em nome de alguém que não é o Senhor Deus. Nem a voz divina diria: Ouve, ó Israel, o Senhor teu Deus é o único Deus (Dt 6:4), se não fosses Trindade e, ao mesmo tempo, o único senhor Deus. E se tu, Deus Pai, fosses Pai e ao mesmo tempo fosses Filho, teu Verbo, Jesus Cristo; e fosses o mesmo Dom, que é o Espírito Santo, não leríamos nas Escrituras da Verdade: enviou Deus o se Filho (Gl 4:4 e Jo 3:7). Nem tu, ó Filho Unigênito, dirias do Espírito Santo: aquele que eu vos enviarei da parte do Pai (Jo 15:26).

Dirigindo todo meu empenho por essa regra de fé, na medida de minhas forças e o quanto me tornaste capaz, eu te procurei e desejei ver pelo entendimento o que creio. Muito discuti e trabalhei.

Ó Senhor meu Deus, única esperança minha, ouve-me, a fim de que jamais me entregue ao cansaço e não mais queira te buscar, mas ao contrário que sempre procure tua face, como todo o ardor (Sl 104:4). Fortalece-me aquele que te busca, tu que permitiste seres encontrado, e acumulaste de esperança de sempre mais te encontrar.

Eis em tua presença a minha força e a minha fraqueza: conserva a força e cura a fraqueza. Na tua presença, minha ciência e minha ignorância. Lá onde me fechaste, abre-me ao bater. Que de ti me lembre, que te compreenda e que te ame! Faze-me crescer nesses dons, até que restaures totalmente.

Sei que está escrito: no muito falar não faltará pecado (Pv 10:19). Mas, oxalá, falasse eu tão-somente para anunciar tua palavra e dirigir-te meus louvores! Não apenas evitaria o pecado, mas alcançaria bons merecimentos, ainda que assim me excedesse no falar. Pois aquele homem, por ti amado, não teria aconselhado cometer pecado a seu filho e irmão na fé, ao qual escreveu dizendo: importuno (IITm 4:2).

Poder-se-á dizer que não falou muito quem não cessava, Senhor, de anunciar tua Palavra, não somente no momento oportuno, mas também no inoportuno? Não teria sido certamente muito, mas o necessário. Livra-me, ó Deus, do muito falar, o que me atormenta, no interior de minha alma, mísera, na tua presença, mas que se refugia em tua misericórdia.

Pois não me calam os pensamentos, mesmo calando-me as palavras. E senão pensasse somente no que é de teu agrado, não te suplicaria que me livrasses do muito falar. Mas muitos de meus pensamentos, tu os conheces, são pensamentos humanos, por isso mesmo vãos (Sl 93:11). Concede-me não e neles não me demorar como sonhador. Não tenha sobre mim a força de levar-me a agir impulsionado por eles, mas com teu auxílio, minhas decisões estejam protegidas de suas investidas e defendida esteja minha consciência.

Um sábio, falando de ti em seu livro, conhecido pelo nome de “Eclesiástico”, diz: Por muito que digamos, muito ficará por dizer, mas o resumo de tudo o que e pode dizer é: que Deus é tudo ( Eclo 42:29).

Por tanto, quando chegarmos à tua presença, cessará o muito que dissemos, mas muito nos ficará por dizer e tu permanecerás só, tudo em todos (ICo 15:28), e então eternamente cantaremos um só cântico, louvando-te em um só movimento, em ti estreitamente unidos.
Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de ti nestes livros, de ti vem. Reconheçam-no os teus, e se algo há meu, perdoa-me e perdoem-me os teus. AMÉM.

A Trindade, Agostinho de Hipona, 354-430, pg. 555-557, Editora Paulus.

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