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Bate-papo sobre o projeto Restaurando a Mente

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sábado, 28 de julho de 2012

Comentário de Gálatas 3:6 - João Calvino





“Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça” (Gálatas 3:6)

É mister primeiramente indagar o que Paulo pretendia dizer com o vocábulo fé; em segundo lugar. O que significa Justiça; e, em terceiro lugar, por que a fé é representada como a causa da justificação. Fé, neste versículo, não deve ser entendida como um tipo de convicção que os homens podem ter a respeito da verdade de Deus. Embora Caim tenha exercido inúmeras vezes fé no Deus que pronunciou castigo contra ele, essa mesma fé não lhe foi de qualquer proveito para obtenção da justiça. Abraão foi justificado mediante o crer, porque, ao receber de Deus uma promessa de bondade paternal ele a aceitou como infalível. A fé tem uma relação a um respeito tal pela Palavra de Deus que pode capacitar os homens a descansar e a confiar em Deus.

No tocante à palavra justiça, é preciso observar a fraseologia de Moisés. Ao afirmar que Abraão “creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15:6), ele queria dizer que o justo é aquele indivíduo reputado como tal aos olhos de Deus. Ora, visto que os homens não possuem qualquer justiça em si mesmo, só podem obtê-la por imputação, porque Deus reputa como justiça a fé dos que crêem. Somos, pois informados de que nossa justificação é mediante a fé (Rm 3:21; 5:1), não porque a fé infunde em nós um hábito ou uma qualidade, mas porque somos aceitos por Deus.

Mas, por que à fé recebe tamanha honra, a ponto de ser chamada a causa de nossa justificação: Primeiramente, temos de observar que a fé é apenas uma causa instrumental. Falando de modo restrito, a nossa justiça não é nada mais do que a nossa aceitação graciosa por parte de Deus, a aceitação sobre a qual temos falado, nós a recebemos por meio da fé. Assim, ao atribuirmos à fé a justificação do homem, não estamos tratando da causa principal, mas apenas indicando o caminho pelo qual os homens podem chegar à verdadeira justiça. Portanto, esta justiça não é uma qualidade inerente nos homens, e sim o dom de Deus. Esta justiça só pode ser desfrutada por meio da fé. Tampouco é uma recompensa justa devida à fé, porque recebemos por meio da fé o que Deus nos dá gratuitamente. Todas as expressões semelhantes à que agora citamos têm o mesmo sentido: somos “justificados gratuitamente por sua graça” (Rm 3:24); Cristo é nossa justiça. A misericórdia de Deus é a causa de nossa justiça. A morte e a ressurreição de Cristo obtiveram a justiça por nós. A justiça é outorgada por meio do evangelho. Obtemos a justiça pela instrumentalidade da fé.

Isto revela o ridículo do erro de tentar reconciliar as duas proposições: que somos justificados pela fé, ao mesmo tempo, pelas obras. Pois aquele é justo “pela fé” (Hc 2:14; Hb 10:38) é pobre e destituído de justiça pessoal, descansando tão-somente na graça de Deus. Esta é a razão por que Paulo conclui na Epístola aos Romanos, que Abraão, tendo obtido a justiça pela fé, não tinha qualquer direito de se gloriar diante de Deus (Rm 4:2). Pois não se diz que a fé lhe foi imputada como parte da justiça, mas simplesmente como justiça, de modo que a sua fé era verdadeiramente a sua justiça. Além disso, a fé não olha para qualquer outra coisa, a nãos ser para misericórdia de Deus e para o Cristo morto e ressurreto. Todo o mérito das obras é excluído como causa da justificação, quando a justiça é atribuída à fé. Pois embora a fé se aproprie da imerecida bondade de Deus, de Cristo com todas os seus benefícios, do testemunho de nossa adoção contido no evangelho, ela é universalmente contrastada com a lei, com o mérito das obras e com a dignidade humana. A noção dos sofistas (de que a fé é contrastada somente com as cerimônias) pode ser reprovada imediatamente e sem dificuldades, com base no contexto desta passagem. Portanto, lembremo-nos de que aqueles que são justos mediante a fé são justos fora de si mesmos, ou seja, em Cristo.

Isto também serve como refutação do ardiloso sofisma de pessoas que evitam o raciocínio de Paulo. Moisés, dizem eles, dá à bondade o nome de justiça; assim, a sua intenção era apenas dizer que Abraão foi reputado como um homem bom, em virtude de ter crido em Deus. Hoje, espíritos levianos, levantados por Satanás, esforçam-se para minar, por meio de calúnias indiretas, a infalibilidade da Escritura. Paulo sabia que Moisés não estava ministrando a rapazes lições de gramática, e sim falando sobre a decisão pronunciada por Deus. Paulo entende mui adequadamente o termo justiça em seu sentido teológico. Pois não é no sentido de bondade aprovada entre os homens que somos justos aos olhos de Deus, mas somente onde prestamos obediência perfeita à lei.

À Justiça é contrastada com a transgressão da lei, mesmo em seus menores mandamentos. E, visto que não temos nada em nós mesmo. Seus no-la outorga gratuitamente. Aqui, porém, os judeus objetavam que Paulo torcia as palavras de Moisés para adequá-las ao seu propósito pessoal; porquanto Moisés não estava falando de Cristo ou da vida eterna, mas apenas de uma promessa terrena. Os papistas não diferem muito dos judeus, pois, ainda que não ousem atacar a pessoa de Paulo, destroem totalmente o significado de suas palavras. Respondo que Paulo toma por inquestionável o que constitui um axioma para os crentes: quaisquer promessas que o Senhor fez a Abraão eram complementos da primeira promessa: “Eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo grande” (Gn 15:1). Quando Abrão ouviu a promessa: “Multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia da praia no mar” (Gn 22:17), ele não limitou a sua visão a essa palavra, mas a incluiu na graça da adoção, como parte de um todo. E, de modo semelhante, todas as outras promessas foram vistas por ele como um testemunho da bondade paternal de Deus, que fortaleceu sua esperança de salvação. Os incrédulos diferem dos filhos de Deus neste aspecto: enquanto também desfrutam dos benefícios divinos, devoram tais benefícios como animais e não olham para o alto. Os filhos de Deus, por outro lado, conscientes e que todos os seus benefícios são santificados pelas promessas, vêem nos benefícios a providência de Deus como Pai deles. A sua atenção é sempre dirigida à esperança de vida eterna, pois começam do fundamento, ou seja, a fé em sua adoção. Abraão foi justificado não meramente porque creu que Deus multiplicaria sua descendência (Gn 22:17), mas porque recebeu a graça de Deus, confiando no Mediador prometido, em quem, como Paulo declara em outra epístola: “Quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus” (2 Co 1:20).

Fonte: Série Comentários Bíblicos – Gálatas, João Calvino, Editora Fiel, 2010, Pg. 76-79.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O Álcool e a questão do escândalo


E, por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandaliza-lo.” (1 Coríntios 8.13)
No capítulo 14 da epístola aos Romanos, e na Primeira epístola aos Coríntios no capítulo 8 e dos versos 14 a 33 do capítulo 10, Paulo fala da preocupação que devemos ter em agir de tal modo que não leve nosso irmão a se escandalizar.
Quando se trata da questão do consumo do álcool, esse é o ponto que costuma gerar mais discussões. Está claro na Bíblia, ao contrário do que muitos crentes pensam, que o Senhor “Do alto de tua morada, regas os montes; a terra farta-se do fruto de tuas obras. Fazes crescer a relva para os animais, e as plantas para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão, o vinho que alegra o coração do homem” (Salmo 104.14-15). Além disso, Cristo transformou a água em vinho (ver João 2.1-14). Portanto antes de considerarmos a questão do escândalo, a Bíblia de modo algum proíbe o consumo de bebidas alcoólicas. Todavia, também é igualmente claro que o consumo exagerado é pecado “Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias.” (1 Pedro 4.3). "E não vos embriagueis com vinho" (Efésios 5.8)."Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices" (Romanos 13.13).  
Agora o ponto que gostaria de discutir é esse, quando beber moderadamente é pecado, quando deve-se levar em conta a questão do escândalo? Primeiro há aqueles que com base na ideia do escândalo creem que o cristão nunca deve beber na frente de outras pessoas, e de preferência deve-se abster totalmente do álcool. Outros em compensação, considerando que o débil está errado em não compreender que eu posso beber e que eu não devo ser escravo da opinião dele e deixa-lo na ignorância, consideram que sempre posso beber moderadamente. Será que alguns desses pontos estão corretos?
Confesso que eu sou mais tendente à primeira posição, mas aqueles que defendem que sempre é correto consumir bebidas alcoólicas moderadamente estão certos em dizer que o débil está errado e que não devo deixar de beber moderadamente deixando sempre aquele que é mais ignorante nessa ignorância, mesmo porque também devo buscar o crescimento no conhecimento do meu irmão, não posso fazer ele pensar que beber moderadamente é pecado quando na verdade não é. Mas igualmente não podemos descartar o que Paulo diz, existe sim o contexto onde minha atitude pode escandalizar o meu irmão, e com certeza o consumo de álcool se adequa nesse contexto muitas vezes, essa é a mesma atitude de alguns da igreja de corinto que provavelmente se orgulhavam no seu conhecimento e prejudicavam os seus irmãos. “E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais” (1 Coríntios 8.12). Apesar de como já falei anteriormente ter ser mais tendente por assim dizer ao primeiro posicionamento, ambas as atitudes biblicamente falando estão erradas.
Porém considerando tudo isso, como saber quando devo beber ou não beber (moderadamente é claro, em excesso é sempre errado!). Creio que dois versículos localizados bem no contexto onde Paulo fala sobre a questão de cuidado para não levar nosso irmão ao escândalo nos respondem essa questão. “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos para o Senhor morremos. Quer pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Romanos 14.8). “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a Glória de Deus” (1 Coríntios 10.31).
Percebam, que posso tanto beber quanto deixar de beber para minha glória. Se você der uma olhada no capítulo 8 de 1 Coríntios, verá que os Coríntios por achar que sabiam muito, não se preocupavam se a atitude deles levasse o irmão a perecer, eles de certo modo demonstravam que poderiam comer comida sacrificada a ídolo sem se preocupar porque tinham conhecimento que isso não era errado. “Eu como porque sei que nada há de errado com isso”. Não é atoa que nesse sentido Paulo fala que o “saber ensoberbece”. Há muitos que para demonstrarem seu conhecimento de que nada há de errado em beber, ainda que saibam que há irmãos imaturos que podem não reagir bem a essa atitude, bebem sem se preocupar. Mas como o foco deles é demonstrar o “conhecimento deles” ou em outros casos como eles são legais, modernos, contextualizados, etc., eles acabam não se importando com o irmão que pode se escandalizar, vejamos que essa é uma atitude que além de egocêntrica é soberba, não há louvor a Deus em uma atitude dessa natureza, o homem que age assim busca louvor para si mesmo.
Todavia, é possível não beber para sua própria glória, se eu faço isso para demonstrar uma “espiritualidade superior” certamente faço isso para minha glória apenas. Lembram-se do fariseu que jejuava 2 vezes por semana (veja Lucas 18.9-14), não havia mandamento nesse sentido na Bíblia (não nessa frequência!), porém ele usava isso para se demonstrar como espiritual e buscar a glória dos homens. Não é possível ir além da lei de Deus, não se pode ir além do que é perfeito, os fariseus criavam mandamentos estranhos a Bíblia enquanto descumpriam vários outros. Podemos agir como os fariseus usando algo que não está na lei para tentar demonstrar como somos espirituais, certamente é mais fácil não beber do que deixar de mentir ou de cobiçar, portanto quando o “não beber” é focado em nós é pecado do mesmo modo.
Por isso, para responder adequadamente essa questão “Quando devo consumir bebidas alcóolicas?”, a resposta mais adequada seria “quando só Deus será glorificado com isso”[1]. Se você for beber em um momento onde pode desfrutar da comunhão e daquilo que Deus criou sem levar teus irmãos a prejuízo então beba, se você for deixar de beber em certa ocasião não porque isso te faça “mais crente”, mas porque você crê que há pessoas que podem compreender errado isso e serem levadas ao engano, então não beba. “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31) “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14.17).
Autor: Ivan Junior


[1] Compreendo que há pessoas que justificam quase tudo que fazem dizendo que fazem isso para a Glória de Deus, porém você só agirá para a Glória de Deus, se agir de acordo com a Lei d'Ele e se levar as pessoas a olharem para Ele e não para você.

O Dízimo é uma obrigação do cristão?


Antes de escrever sobre esse assunto, quero deixar claro que creio que há verdadeiros cristãos que amam a Bíblia, que são contrários ao dízimo. Não creio que todos que sejam contrários à prática o façam por não quererem dar dinheiro a igreja, alguns podem ser até mesmo mais generosos do que aqueles que são defensores do dízimo. Lógico que existem questões fundamentais, que aqueles que as negam não poderiam de modo algum ser considerados cristãos, não creio que o dízimo esteja entre essas questões fundamentais, porém vou tentar demonstrar aqui que quem se posiciona contrariamente ao dízimo está errado.
Para alguns, pode parecer estranho que haja cristãos que dizem que a prática do dízimo está errada, mas não podemos ignorar que o argumento deles tenha algum peso. De modo geral, aqueles que são contra a prática do dízimo o são, pois consideram que, na Nova Aliança, após a morte e ressureição de Cristo não há mandamento que diga que os cristãos devem pagar o dízimo e somente que eles devem pagar ofertas e, portanto os cristãos não estão mais sobre a obrigação de pagar os dízimos.
De modo geral, para se chegar a essa conclusão deve-se ter o seguinte pressuposto em mente, eu só tenho obrigação de cumprir algo se estiver confirmado no novo mandamento. Será que Cristo revogou a lei? Não foi isso que Ele disse no sermão em que demonstrou a correta interpretação dela “Não penses que vim revogar a lei ou os Profetas, não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra.”(Mateus 5.17-18). Devemos compreender a divisão que os teólogos fazem em relação a lei.
Lei cerimonial: Relacionados aos sacrifícios e a separação do povo de Israel dos demais povos, foi cumprida em Cristo e estamos livres delas, eram sombras que apontavam para a Cristo. (Você pode compreender melhor isso estudando a epístola aos Hebreus).
Lei Cívil: Lei do estado teocrático de Israel, não somos mais cidadãos do estado de Israel, essa lei pode ser usada como modelo para o desenvolvimento de um governo civil, mas é para ser aplicado por governos e não pela igreja, apenas ao estado (Rm 13.1-6) foi dado o poder da espada (de aplicar a pena capital, ou seja pena de morte) e não a igreja.
Lei Moral: Estamos sobre obrigação de seguir essa lei, fomos salvos para andar segundo ela (Ef 2.10, Ti 2.14, Jo 14.15, 1 Jo 2.3-4, 1 Jo 5.2-3).
É importante compreendermos que a lei moral não é só aquilo que está prescrito no Novo testamento. Por exemplo, você acha imoral fazer sexo com um animal? E casar com sua irmã, irmão, tio, ou tia? O novo testamento não proíbe esse tipo de coisa, apenas o antigo testamento, se pensarmos que apenas o que está no novo vale para nós, não podemos considerar imoral nenhuma dessas coisas.
Portanto, a menos que o dízimo seja considerado como lei cerimonial ou civil ou que esteja implícito no novo testamento que não devemos dar o dízimo não poderíamos considerar que ele não seja mais obrigatório.
Podemos afirmar de maneira clara que ele não faz parte da lei civil, já que ele já era dado antes de Moisés. Vemos que Abraão pagou o dízimo a Melquisedeque (Gn 14.18-20).
Porém poderia o dízimo ser considerado uma lei cerimonial? O dízimo sustentava os sacerdotes, que estavam ligados ao templo, poderíamos por isso dizer que o dízimo não é mais obrigatório? Se considerarmos o mesmo exemplo anterior, podemos dizer que antes de existir o sacerdócio levítico já existia o dízimo. É correto que também existia a circuncisão e os sacrifícios, mas essas coisas foram claramente modificadas, a circuncisão pelo batismo e os sacrifícios apontavam claramente para Cristo. Não podemos dizer o mesmo sobre os dízimos, não há nenhuma advertência no Novo Testamento de que seria errado os cristãos fazerem isso.
Além disso, há algo que Paulo fala muito útil para dizermos que o dízimo ainda é válido, lembre que ele falou isso sobre a Nova Aliança:
Não sabeis vós que os que prestam serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tira sustento” (1 Coríntios 9.13)
Apesar de alguns cristãos invalidarem o Antigo Testamento, não é essa a atitude Paulo para com o Antigo Testamento, como não foi a atitude de Cristo e nem de nenhum dos apóstolos. Além disso, Paulo está defendendo o direito daquele que prega viver apenas de pregar o evangelho. Se ele tem o direito de viver de pregar o evangelho, donde ele tirará o sustento? Os que serviam no templo eram sustentados pelos dízimos, será que considerando o exemplo de Paulo não deve ser essa a forma de sustento de quem vive do evangelho?
Além disso Paulo ensina cada um a contribuir segundo tiver proposto no coração (2 Cor 9.7) e segundo nossas posses (2 Cor 8.11), tendo que estipular um valor você prefere confiar em sua própria sabedoria ou naquilo que o próprio Deus estabeleceu?
Por último, acho importante lembrarmos de uma advertência de Cristo:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt 23.23)
Cristo não diz que dar o dízimo era errado, mas apenas que isso não é a coisa mais importante. Devemos fazer isso sem esquecer as coisas mais importantes.
Uma defesa bem mais elaborada poderia ser formulada, mas acho que esses princípios aqui são importantes para entendermos que o dízimo ainda é uma obrigação do cristão. Quando fazemos isso declaramos que tudo pertence ao Senhor, apenas devolvemos a Ele uma parte. Além disso, dez por cento deveria ser o mínimo a ser considerado, se não damos nem isso para sustentar a obra d’Ele será que poderíamos considerar que temos dado prioridade ao seu Reino (Mt 6.33). Se você acha que não é correto dar os dízimos somente pense sobre isso.
PS: Após ter escrito esse post encontrei esse texto que indico no link abaixo do Pb. Solano Portela, com bons argumentos em defesa do dízimo. Não modifiquei meu texto depois de ter lido esse, apenas acrescentei uma referência bíblica a mais.

Além do link acima acho importante ver o que o Pb. Solano Portela escreveu em um comentário no blog, no qual ele é um dos escritores, segue abaixo.
Resumindo minha posição sobre o dízimo:   
1. A contribuição proporcional antecede a lei civil e judicial de Israel. Aparentemente, pelos registros bíblicos, o costume era uma prática do povo de Deus e das pessoas tementes a Deus na época dos patriarcas.     
2. Logicamente, a prática foi incorporada na legislação de Israel. Junto com seu caráter mandatório, foram estipuladas outras contribuições e taxas. O entrelaçamento, da época, entre o governo civil e as autoridades religiosas (normal, pois era uma teocracia) faz com que essas taxas fossem também os impostos para a manutenção do governo, mas não excluiu os aspectos sacramentais, simbólicos e religiosos - de reconhecimento de Deus como o dono de tudo e de todos e nós como mordomos seus.           
3. Quem fizer defesa de dízimo baseado na legislação mosaica, o faz equivocadamente e, por coerência, deveria advocar o apedrejamento de quebradores do dia de descanso, bem como as leis dietéticas. Até a utilização da expressão "trazei todos os dízimos à casa do tesouro" aplicada anacronicamente aos nossos dias, é questionável e não reflete uma boa hermenêutica - a não ser para o explorar o princípio que estava por trás disto.     
4. Por outro lado, considerando que a prática da contribuição proporcional não foi iniciada nesse período, há de se questionar se o seu abandono é algo a ser defendido, propagado, pregado. Ou seja - será que isso contribui para o bom andamento da Igreja?
5. Indo ao Novo Testamento, não vemos revogação do princípio da contribuição proporcional, nem pregação contra ele, nem indicação de que ele se constituiria em uma forma legalista de adoração. Pelo contrário, em algumas situações (coloco essas questões mais extensivamente no meu artigo) Paulo utiliza a linguagem de prática de contribuição proporcional, como sendo uma forma a ser seguida pelos fiéis.
6. Além disso, no próprio Novo Testamento, o autor de Hebreus, quando faz referência ao incidente de Abraão, para ressaltar a ascendência de Melquisedeque sobre a Lei Ceirmonial do AT, demonstrando a permanência do sacerdócio de Cristo, faz menção à dádiva do dízimo. Por que essa referência? Se o dízimo é algo que não é importante; que deve, na realidade, ser abolido; que pertence apenas "à época da lei", por que ressaltar a dádiva, apenas confundindo seus leitores? Ou será que era, realmente, importante mencionar coo algo que está acima da lei cerimonial?
7. Ainda no NT, Jesus não prega contra o dízimo e, na realidade, reforça ele, dirigindo-se aos Fariseus.           
8. A prática de ofertas voluntárias não poderia ser, na minha opinião, a contrapartida neo-testamentária ao dízimo, pois elas já existiam, igualmente, no antigo testamento (desenvolvo, também, com maior substanciação, esse ponto - de ofertas no Antigo Testamento, em meu artigo). No meu entendimento, as ofertas são algo acima e que transcendem uma sistematização no dar.    
9. Se considerarmos etimologicamente a designação da contribuição proporcional (dízimo), vamos cair nos dez por cento. Será possível estabelecermos outro padrão? Cinco por cento? Dois por cento? Trinta por cento (como ouvi um pregador, certa vez, dizer que era assim que ele fazia e quase procurar impingir isso como ideal)? Talvez, mas isso não terá uniformidade ou aceitação abrangente e terminaríamos em um individualismo subjetivo. Como poderia ser proporcional, se os percentuais variassem de comunidade para comunidade, ou até dentro da mesma comunidade? Temos, realmente, que "inventar" algo novo?           
10. Posso até concordar que essa questão, por não ser determinação neo-testamentária explícita, talvez não devesse ser alvo de legislação denominacional ou eclesiástica, ficando no foro íntimo. Mas me parece que a idéia da contribuição proporcional:    
a. É Bíblica.    
b. Auxilia o homem, indisciplinado por natureza, a se organizar a sistematizar a sua contribuição.       
c. Faz com que as comunidades (vejam, estou sucumbindo à terminologia contemporânea) e igrejas locais reflitam o poder aquisitivo dos congregados e tenham condições de planejar e projetar suas ações e ministérios.
d. A contribuição sistemática alegra a Deus e não impede que contribuamos com alegria (será que todo o povo de Deus no AT, onde não há dúvida que o dízimo era requerido, contribuía por constrangimento, sem alegria? De onde tiramos essa noção, de que sistematização significa escravidão?);e. Assim, mesmo sem se constituir ponto de julgamento de um sobre o outro, ou da igreja sobre o um, deveria ser pregada e propagada dos púlpitos, como um estudo bíblico válido e aplicável.
Autor: Ivan Junior

Eu não penso assim Doug


Doug Wilson, em uma postagem recente intitulada, “Paul on divorce and remarriage”(NT: Paulo em divórcio e novo casamento), diz que 1 Coríntios 7.28 permite um homem divorciado casar novamente. Eu não acho que seja isso o que Paulo esteja dizendo.
1 Coríntios 7.27-28 diz “Você está ligado a esposa (ou literalmente “mulher” como no noivado)? Não procure ser livre. Esta livre de uma esposa (ou mulher)?Não procure uma esposa (ou mulher). Mas se você casar, você não pecou, e se a mulher desposada casa, ela não pecou” (NT: Nesse caso fiz uma tradução da versão usada pelo autor, as partes em parênteses são citações dele)
A questão é se “livre de uma esposa” no verso 27 significa divorciado ou se ele significa não casado. Se isso significa “divorciado de uma mulher”, então ele está dizendo “Se uma pessoa divorciada casa novamente, ela não peca”.
O melhor argumento em favor da leitura do verso 27 é que por trás do termo em inglês “free from a woman” (NT: Livre de uma mulher) esta o grego lelusai o qual é voz passiva de luo (“desligar”) de modo que lelusai soa como  “desligado de uma mulher” que é “divorciado”.
Eu acho que é improvável que Paulo esteja dizendo que aos divorciados é permitido casar novamente. Preferencialmente, ele esta dizendo que noivos virgens – homens e mulheres – deveriam considerar seriamente a vida de solteiro, mas não pecam se eles casarem.
Aqui estão os argumentos para essa visão:
1.   Verso 25 sinaliza que Paulo está iniciando uma nova sessão e lidando com uma nova questão. “Quanto às pessoas virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou meu parecer como alguém que, pela misericórdia de Deus, é digno de confiança.
1 Coríntios 7:25” (NVI). Ele já lidou com o problema de pessoas divorciadas nos versos 10-16. Agora ele assume uma nova questão sobre aqueles que ainda não são casados, e ele sinaliza isso dizendo “Quanto as pessoas virgens”(NVI). Portanto é muito improvável que as pessoas referidas no verso 27-28 sejam divorciadas.
2.   Uma afirmação de que não é pecado pessoas divorciadas se casarem novamente (verso 28) iria contradizer o verso 11, onde ele diz que uma mulher separada do seu marido deve permanecer solteira “que a esposa não se separe do seu marido.        
Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher.
1 Coríntios 7:10-11”(NVI)
3.   O verso 36 muito provavelmente descreve a mesma situação em vista nos versos 27 e 28, porém claramente se refere a um casal que ainda não está casado. “Se alguém acha que não está tratando adequadamente sua noiva (parthenon), se sua paixão é forte, se tem que ser, deixa ele fazer como deseja: deixe eles casarem – não é pecado” (NT: nesse caso mas uma vez optei por uma tradução direta da versão do autor). Isso é o mesmo que o verso 28 onde Paulo diz “ Mas se você casar, não peca”.
4.   A referência em inglês no verso 27  “being bound to a ‘wife’” (NT ”estar ligado a uma esposa” não vemos o termo “ligado a esposa” nas versões mais comumente usadas em português) pode ser mal interpretado por sugerir que o homem já está casado. Mas no grego a palavra esposa é simplesmente “mulher” e pode se referir tanto a uma mulher desposada a um homem quanto à esposa dele. Portanto “estar ligado” e “estar desligado” tem referencia a uma pessoa estar ou não desposada.
5.    É significante que o verbo que Paulo usa para “desligado” (lelusai vem de luo) ou “livre” não é uma palavra que ele usa para divórcio. A palavra de Paulo para divórcio é chorizo (versos 10, 11 e 15 e veja Mateus 19.6) e aphienai (versos 11, 12 e 13). De fato luo não é usado para divórcio em nenhum lugar do novo testamento.
Original: aqui
Autor: John Piper
Tradução livre: Ivan Carlos Parecy Junior 

Breve catecismo sobre o casamento



1. Quem instituiu o casamento?
O próprio Deus instituiu o casamento. De um homem, Deus faz homem e mulher, para no casamento os dois voltarem a ser um(a).
(a)Gênesis 2.21-24; Mateus 19.4-6, Efésios 5.31.
2. Com quem o cristão pode se casar?
Ao cristão é lícito se casar somente no Senhor(a). O cristão não deve se casar com incrédulos (b) ou com aqueles que se dizem cristãos e vivam uma vida ímpia (c). O cristão também não deve se casar com pessoas entre as quais existe grau de consanguinidade ou afinidade proibidos na Palavra de Deus (d).
(a) 1 Coríntios 7.39.
(b) 2 Coríntios 6.14; Malaquias 2.11-12; Neemias 13.23-29.
(c) 1 Coríntios 5.11.
(d) Levítico 18.1-18; 1 Coríntios 5.1; Marcos 6.18.
3. Pode o cristão se casar com mais de uma pessoa? A Bíblia permite a poligamia?
Não. Deus faz homem e mulher, para no casamento os dois voltarem a ser um(a). Cada mulher deve ter seu próprio marido e cada marido deve ter sua própria mulher (b).
(a) Gênesis 2.21-24; Mateus 19.4-6; Efésios 5.31.
(b) 1 Coríntios 7.2; 1 Timóteo 3.2; Tito 1.6.
4. A Bíblia permite casamento entre pessoas do mesmo sexo?
Não. No princípio Deus criou homem e mulher (a). Homossexualismo é abominação perante o Senhor (b).
(a) Gênesis 2.21-24; Mateus 19.4-6; Efésios 5.31.
(b) Levítico 18.22; Romanos 1.26-27; 1 Coríntios 6.9; Judas 7.
5. Todo cristão deve-se casar?
Não. Há alguns foi dado o dom de permanecerem solteiros (a), mas isso não é uma obrigação imposta sobre aquele que quiser ser presbítero (b).
(a) 1 Coríntios 7.7; Mateus 19.11-12.
(b) 1 Timóteo 3.2; Tito 1.6; 1 Timóteo 4.3.
6. Ao Cristão é lícito se divorciar?
Não. O que Deus ajuntou não o separe o homem (a), Deus abomina o divórcio (b) e o proíbe (c).
(a) Mateus 19.6; Marcos 10.9.
(b) Malaquias 2.16.
(c) Mateus 5.32; Mateus 19.9; Marcos 10.11-12; Lucas 16.18; 1 Coríntios 7.10-11.
7. Em nenhum caso ao cristão é permitido o divórcio?
O divórcio é permitido em caso de adultério (a), e caso o cônjuge descrente se aparte o cristão não é obrigado a forçar o descrente a manter um relacionamento (b).
(a) Mateus 19.9; Mateus 5.32;
(b) 1 Coríntios 7.15.
8. Ao cristão divorciado é permitido casar de novo?
Apenas a morte do cônjuge deixa livre o cristão para se casar novamente[1] (a), ao divorciado só restam duas opções permanecer como está, ou voltar ao cônjuge inicial (b).
(a) Romanos 7.2-3; 1 Coríntios 7.39.
(b) 1 Coríntios 7.11.
9. Me casei novamente, e meu cônjuge ainda está vivo, devo voltar ao primeiro casamento?
Não, deve permanecer como está[2] (a). Você deve se arrepender e pedir perdão pelo seu erro para voltar a comunhão normal da igreja (b).
(a) Deuteronômio 24.1-4.
(b) 2 Coríntios 2.5-11.
10. Qual obrigação da mulher em relação ao homem no casamento?
A mulher deve ser submissa ao marido (a), como a igreja é submissa a Cristo (b).
(a) Efésios 5.22-24; 1 Pedro 3.1; Colossenses 3.18.
(b) Efésios 5.24.
11. Qual obrigação do homem em relação à mulher no casamento?
O homem deve tratar a mulher como parte mais frágil (a), amá-la (b), assim como Cristo amou a igreja e deu Sua vida por ela (c).
(a) 1 Pedro 3.7.
(b) Efésios 5.25-28; Colossenses 3.19, Efésios 5.33.
(c) Efésios 5.25.
12. Qual é maravilhosa relação representada pelo casamento?
A maravilhosa relação entre Cristo e sua Igreja (a).
(a) Efésios 5.22-32.




[1] Aqui, minha posição diverge da maioria dos teólogos reformados, e até mesmo da confissão de Fé de westminter, esses creem que o cristão abandonado pelo descrente ou traído considera a outra parte como morta e pode-se casar novamente. Os textos que poderiam permitir essa interpretação são Mateus 19.9, Mateus 5.32 e 1 Coríntios 7.15, porém parece claro que Cristo considera essa clausula de exceção em relação ao divórcio e não ao novo casamento, e concluir esse tipo de coisa faria com que os ensinos de Paulo e Cristo fossem divergentes. Para uma defesa magistral da total proibição do novo casamento quando o cônjuge ainda esta vivo veja: <http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/divorcio_novo_casamento_piper.htm><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/proib-recasamento_Miersma.pdf><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/novo-casamento-mateus19_stewart.pdf><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/desercao_stewart.pdf><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/proibicao-divorcio_engelsma.pdf><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/divorcio_sermao_monte_cheung.pdf>
[2] Não há um texto bíblico que lide claramente com essa questão, mas o contexto de Deuteronômio 24 é de uma situação onde estava ocorrendo o divórcio e nesse caso voltar ao primeiro cônjuge era considerado abominação. Possivelmente esse texto é o mais útil em orientar nesses casos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Biografia George Whitefield – J. C. Ryle (Final)



Ele era um homem de ardente amor por nosso Senhor Jesus Cristo. Este nome que está ‘acima de todo nome' destaca-se incessantemente em toda a sua correspondência. Como um ungüento perfumado, ele dá um aroma a todas as suas cartas. Ele parece nunca cansar de dizer alguma coisa a respeito de Jesus. ‘Meu Mestre' como George Herbert dizia, nunca fica fora de sua mente. Seu amor, Sua expiação, Seu sangue precioso, Sua justiça, Sua prontidão em receber pecadores, Sua paciência e maneira meiga de lidar com os santos, são temas que aparecem sempre frescos diante de seus olhos. Pelo menos neste aspecto, há uma curiosa semelhança entre ele e aquele glorioso teólogo escocês, Samuel Rutherford.
Ele era um homem de incansável diligência e labor no que diz respeito nos negócios de seu Mestre. Seria difícil talvez, encontrar alguém nos anais da Igreja que trabalhou tão duro por Cristo e se gastou tão plenamente em seu serviço. Henry Venn, no sermão fúnebre em sua lembrança, pregado em Bath, deu o seguinte testemunho, ‘Que sinal e prodígio foi este homem de Deus, no que diz respeito à imensidão dos seus labores! Alguém não pode senão ficar espantado que a sua estrutura mortal pudesse, pelo espaço de quase trinta anos, sem interrupção, sustentar o peso deles; pois o que é mais fatigante á estrutura humana, especialmente na juventude, do que um esforço longo, contínuo, freqüente e violento dos pulmões? Quem que conheça sua estrutura pensaria ser possível que uma pessoa pouco acima da idade adulta, pudesse falar em uma simples semana, e isto durante anos - em geral quarenta horas, e em muitas semanas, sessenta - e isto para milhares de pessoas; e após seus labores, ao invés de descansar, poderia elevar orações e intercessões, com hinos e cânticos espirituais, como costumava fazer, em cada casa à qual era convidado? A verdade é que, no que diz respeito ao labor, este extraordinário servo de Deus fez em algumas semanas tanto quanto a maioria daqueles que, embora se esforçando, consegue fazer no espaço de um ano.
Ele foi até o fim, um homem de eminente auto-negação. Seu estilo de vida era o mais simples. Ele foi notadamente um exemplo típico de moderação no comer e beber. Durante toda a sua vida, ele acordava muito cedo. Sua hora habitual de levantar-se era às quatro horas, tanto no verão como no inverno; e era igualmente pontual na hora de recolher-se, cerca de dez horas da noite. Um homem de oração, ele freqüentemente gastava noites inteiras em leitura e devoção. Cornelius Winter, que freqüentemente dormia no mesmo quarto, diz que ele às vezes levantava durante a noite com este propósito. Ele ligava muito pouco para dinheiro, exceto como uma ajuda para a causa de Cristo, e o recusava, quando lhe era oferecido para seu próprio uso. Uma vez recusou a importância de sete mil libras. Ele não acumulou fortuna nem estabeleceu uma próspera família. O pouco dinheiro que ele deixou ao morrer provinha inteiramente de doações de amigos. O comentário vulgar que o Papa fez a respeito de Lutero, ‘este animal alemão não ama o ouro', poderia bem ter sido aplicado a Whitefield.
Ele era um homem de notável desinteresse e simplicidade. Ele parecia viver apenas para dois objetivos: a glória de Deus e a salvação de almas. Ele não tinha objetivos secundários ocultos. Ele não levantou nenhum grupo de seguidores que tomassem seu nome. Ele não estabeleceu nenhum sistema denominacional que adotasse seus próprios escritos como elementos cardinais. Uma expressão sua é bem característica do homem: ‘Que o nome de George Whitefield pereça contanto que Cristo seja exaltado'.
Ele era um homem de um espírito singularmente feliz e alegre. Ninguém que o visse poderia jamais duvidar que ele se deleitava na sua religião. Perseguido que foi de muitas maneiras por todo o seu ministério - caluniado por alguns, desprezado por outros, deturpado por falsos irmãos, sofrendo oposição em todo lugar pelo clero ignorante do seu tempo, preocupado por incessante controvérsia - sua flexibilidade nunca falhou. Ele era um cristão eminentemente alegre, cuja própria conduta recomendava a obra de seu Mestre. Uma venerável senhora de New York, após sua morte, ao falar das influências através das quais o Espírito ganhou seu coração para Deus, usou estas notáveis palavras: ‘O Senhor Whitefield era tão feliz que isso me provocou a tornar-me uma cristã.'
Finalmente, mas não menos importante, ele era um homem de extraordinária caridade, catolicidade e liberalidade na sua religião. Ele nada conhecia daquele sentimento tacanho que faz com que alguns homens imaginem que tudo tem que ser estéril, fora de seus próprios campos, e que sua própria denominação tem um completo monopólio da verdade e do Céu. Ele amava todos os que amavam o Senhor Jesus com sinceridade. Ele media a todos com a medida que os anjos usam, ‘professam eles arrependimento para com Deus, fé no nosso Senhor Jesus Cristo e santidade de vida?' Se sim, eles eram seus irmãos. Sua alma ligava-se com estes homens, qualquer que fosse o nome com que fossem chamados. Diferenças menores eram madeira, palha e restolho para ele. As marcas do Senhor Jesus eram as únicas marcas que lhe interessavam. Essa catolicidade era mais notável quando o espírito dos tempos em que viveu é considerado. Até mesmo os Erskines, na Escócia, queriam que ele não pregasse em nenhuma outra denominação que não a deles - isto é, a Igreja da Cessessão. Ele perguntou: ‘Por que somente para eles?' - E recebeu a incrível resposta que ‘eles eram o povo do Senhor.' Isto foi mais do que Whitefield podia suportar. Ele disse: ‘Se não há nenhum outro povo de Deus senão eles, se todos os outros são povo do diabo, eles certamente têm mais necessidade de pregação;' E ele finalizou informando-os de que ‘se o próprio Papa lhe cedesse seu púlpito, ele proclamaria alegremente nele a justiça de Cristo.' A esta catolicidade de espírito ele aderiu todos os seus dias. Se outros cristãos o deturpassem, ele os perdoava, e se recusassem trabalhar com ele, ainda assim ele os amava. Nada pode ser um testemunho mais valioso contra a intolerância do que o seu pedido, feito pouco antes da sua morte que, quando morresse, John Wesley fosse convidado para pregar no seu enterro. Wesley e ele há muito não concordavam sobre pontos calvinistas; mas Whitefield, até o fim, estava determinado a esquecer as diferenças superficiais, e a considerar Wesley como Calvino considerou Lutero: ‘Simplesmente um bom servo de Jesus Cristo.' Em outra ocasião um severo professor de religião lhe perguntou ‘se ele pensava que veria John Wesley no céu?' ‘Não, senhor,' foi a sua extraordinária resposta; ‘eu temo que não. Ele estará tão próximo do trono, e nós tão distantes, que dificilmente o veremos'.
Longe de mim dizer que o assunto deste capítulo foi um homem sem faltas. Como todos os santos de Deus, ele foi uma criatura imperfeita. Ele às vezes errava nos seus julgamentos. Ele freqüentemente tirava conclusões precipitadas sobre a providência divina, e se enganava, tomando as suas próprias inclinações como sendo direção de Deus. Ele era freqüentemente apressado, tanto com sua língua como com sua pena. Ele não hesitava em dizer que o ‘Arcebispo Tillotson não sabia mais do Evangelho do que Maomé.' Ele errava em distinguir algumas pessoas como inimigas do Senhor e outras como amigas do Senhor tão precipitada e positivamente como às vezes fazia. Era censurável sua atitude de denunciar muitos ministros como ‘fariseus,' porque não aceitavam a doutrina do novo nascimento. Mas ainda assim, apesar de tudo que foi dito, não pode haver dúvida de que, no geral, ele era um homem eminentemente santo, que se auto-negava, e consistente. ‘As faltas do seu caráter,' diz um escritor americano - ‘eram como pontos no sol, detectadas sem muita dificuldade por qualquer observador moderado e cuidadoso que se esforce em procurá-las, mas, para todo propósito prático, são pontos perdidos numa efulgência geral e afável'. Quão bom seria para as igrejas dos nossos dias, se Deus lhes desse mais ministros como o grande evangelista da Inglaterra de cem anos atrás!
Apenas nos resta dizer que aqueles que desejarem conhecer mais a respeito de Whitefield fariam bem em ler com atenção os sete volumes de suas cartas e outras publicações, que o Dr. Gillies editou em 1770. Eu estaria muito enganado se quem fizer isso não for agradavelmente surpreendido com o seu conteúdo. E motivo de espanto para mim que, dentre tantas reimpressões no século dezenove, nenhum publicador tenha tentado reimprimir totalmente as obras de George Whitefield.
Um pequeno trecho da conclusão de um sermão pregado por Whitefield em Kennington Common, pode ser interessante para alguns leitores, e pode servir para dar-lhes uma pálida idéia do estilo do grande pregador. Foi um sermão baseado no texto, ‘Que pensais vós do Cristo?' (Mt. 22:42).
‘Ó meus irmãos, meu coração está dilatado para vocês. Eu confio que sinto alguma coisa daquela escondida mas poderosa presença de Cristo enquanto estou pregando a vocês. Sim, ela é doce - ela é extraordinariamente reconfortante. Todo o mal que eu desejo a vocês que sem razão são meus inimigos, é que sintam o que estou sentindo. Acreditem-me, embora fosse um inferno para minha alma retornar ao estado natural novamente, ainda assim, eu desejaria trocar de estado com vocês por um tempo, a fim de que vocês pudessem conhecer o que é ter Cristo habitando em seus corações pela fé. Não voltem suas costas. Não deixem que o diabo os faça sair correndo. Não temam a convicção de pecados. Não pensem mal das doutrinas porque pregadas fora das paredes da igreja. Nosso Senhor, nos dias de Sua carne, pregou em um monte, em um barco, em um campo, e eu estou persuadido que muitos têm sentido aqui a Sua graciosa presença. A verdade é que nós falamos do que conhecemos. Portanto, não rejeitem o reino de Deus, para o mal de si próprios. Sejam sábios e recebam o nosso testemunho.
‘Eu não posso, e não permitirei que partam. Permaneçam um pouco, e ponderemos juntos. Por mais levianamente que vocês estimem suas almas, eu sei que o nosso Senhor coloca nelas um valor indizível. Ele as considerou dignas de Seu preciosíssimo sangue. Eu rogo a vocês, portanto, ó pecadores, que se reconciliem com Deus. Eu espero que vocês não temam ser aceitos no Amado. Eis que Ele chama vocês. Eis, Ele toma a dianteira e segue vocês com sua misericórdia, e enviou Seus servos às ruas e becos para compeli-los a entrar.
‘Lembrem-se, portanto, que nesta hora deste dia, neste ano, neste lugar, foi dito a todos o que deveriam pensar a respeito de Jesus Cristo. Se vocês perecerem agora, não será por falta de conhecimento. Eu estou livre do sangue de todos vocês. Vocês não podem dizer que eu tenho pregado condenação. Não podem dizer que eu tenho, como os pregadores legalistas, requerido que vocês façam tijolos sem palha. Eu não tenho ordenado que vocês se façam a si mesmos santos e então venham a Deus. Eu tenho oferecido a salvação a vocês nos termos mais fáceis que possam desejar. Eu tenho oferecido toda a sabedoria de Cristo, toda a justiça de Cristo, toda a santificação e eterna redenção de Cristo, se vocês apenas crerem nEle. Se você disser que não pode crer, diz certo; pois a fé, assim como todas as outras bênçãos, é dom de Deus. Mas então espere em Deus, e quem sabe se Ele não terá misericórdia de você' .
‘Por que não nutrimos mais pensamentos amorosos a respeito de Cristo? Você pensa que Ele terá misericórdia de outros e não de você? Você não é pecador? Cristo não veio a este mundo para salvar os pecadores?'
‘Se você disser que é o maior dos pecadores, eu replico que isso não será impedimento para a sua salvação. De fato não será, se você, pela fé se apegar a Cristo. Leia os Evangelhos e veja quão amavelmente Ele se comportava para com os seus discípulos, os quais O abandonaram e negaram. ‘Vão, digam aos meus irmãos', diz Ele. Ele não diz, ‘vão digam àqueles traidores,' mas, ‘vão, digam aos meus irmãos e a Pedro'. E como se Ele houvesse dito, ‘Vão, digam aos meus irmãos em geral, e a Pedro em particular, que eu ressuscitei. Oh, confortem seu coração abatido. Digam-lhe que eu estou reconciliado com ele. Ordenem que ele não chore mais tão amargamente. Porque apesar de ter Me negado três vezes com juras e imprecações, ainda assim Eu morri pelos seus pecados; Eu ressuscitei novamente para sua justificação: Eu gratuitamente perdoei tudo.' Assim, lento para irar-Se e de grande benignidade, foi nosso todo misericordioso Sumo Sacerdote. E você pensa que Ele mudou Sua natureza e esqueceu-Se dos pobres pecadores, agora que foi exaltado à direita de Deus? Não! Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre; e assentou-Se ali apenas para interceder por nós'.
‘Venham, portanto, vocês prostitutas; venham, vocês publicanos; venham, vocês pecadores abandonados, venham e creiam em Jesus Cristo. Embora o mundo inteiro os despreze e os expulse, ainda assim Ele não desdenhará tomá-los para Si. Oh, que amor surpreendente, que amor condescendente! Mesmo vocês, ele não se envergonhará de chamar Seus irmãos. Como escaparão vocês se negligenciarem tal oferta gloriosa de salvação? O que não dariam os espíritos condenados agora nas prisões do inferno, se Cristo lhes fosse tão graciosamente oferecido? E por que não estamos erguendo nossos olhos em tormentos? Qualquer pessoa entre esta grande multidão ousa dizer que não merece condenação? Por que somos deixados, enquanto outros são tomados pela morte? O que é isto senão um exemplo da livre graça de Deus, e um sinal da Sua boa vontade para conosco? Deixemos que a bondade de Deus nos guie ao arrependimento. Oh, haja alegria nos Céus, por alguns de vocês que se arrependam!'
FIM
*Traduzido por Paulo R. B. Anglada, a partir de J. C. Ryle, Christian Leaders of 18th. Century (reprint, Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1978), 149-79. Revisado por Cláudio Vilhena e Emir Bemerguy Filho.

Falsos Profetas – Lloyd-Jones



(...)
Como, pois, poderíamos descrever esses indíviduos[1]? O que há de errado no ensino deles? A maneira mais conveniente de se fornecer resposta a essas perguntas consiste em dizer que no ensino ministrado por eles não há o elemento da “porta estreita”, nem há o “caminho apertado”. Até onde vai, esse ensino parece bom, mas não inclui nenhum desses aspectos. Trata-se, pois, de um falso ensino, cuja falsidade deve ser detectada por meio daquilo que não declara, muito mais do que por intermédio daquilo que realmente diz. E é precisamente quanto a isso que podemos perceber a sutileza da situação. Conforme já pudemos averiguar, qualquer crente pode detectar um indivíduo que costuma declarar coisas ultrajantemente erradas; mas seria injusto e descaridoso dizermos que a vasta maioria dos crentes da atualidade não parece ser capaz de detectar o indivíduo que parece dizer as coisas certas, mas que deixa de fora questões vitais? De alguma maneira, temos aceitado o conceito de que o erro consiste tão-somente naquilo que é ultrajantemente errado; mas não parecemos compreender que a pessoa mais perigosa de todas é justamente aquela que não enfatiza as coisas certas.
Essa é a única maneira de compreendermos corretamente esse quadro a respeito dos falsos profetas. O profeta falso é o indíviduo que não inclui as ideias da “porta estreita” e do “caminho apertado” na sua mensagem. Ele nada apresenta de realmente ofensivo para o homem natural; mas procura agradar a todos. Exibe-se “disfarçado de ovelha”, e mostra-se tão atrativo, tão amável, tão agradável de ser admirado. Sua mensagem é tão suave, consoladora e confortadora! Ele agrada a todos, e todos falam bem dele. Jamais é perseguido por causa da sua pregação, e nunca é severamente criticado por causa da mesma. É elogiado igualmente pelos liberais, pelos modernistas, e também pelos evangélicos e por todos os demais. Nesse mau sentido, ele é tudo para todos; em sua mensagem não há o aspecto da “porta estreita” e nem o aspecto do “caminho apertado”, e nele nada transparece do “...escândalo da cruz...” (Gálatas 5:11).
(...)
Fonte: LLOYD-JONES, D.M. Estudos no sermão do monte. São Jose dos Campos: Editora Fiel. 4º Ed. 1999. p. 518-519.


[1] Lloyd-Jones refere-se aos falsos profetas

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Biografia George Whitefield – J. C. Ryle (Parte 6)



George Whitefield, na minha avaliação, foi tão decididamente o principal e o primeiro dentre os reformadores ingleses do século passado, que não me desculpo por oferecer algumas informações adicionais a seu respeito. O real bem que ele fez, o caráter peculiar da sua pregação, o caráter privado do homem, são todos pontos que merecem consideração. São pontos, posso acrescentar, a respeito dos quais tem havido muita compreensão incorreta.
Esta compreensão incorreta talvez seja inevitável, e não deveria nos surpreender. As fontes para que se forme uma correta opinião a respeito de um homem como Whitefield são necessariamente muito escassas. Ele não escreveu livros lidos por milhões, de fama universal, como ‘O Peregrino', de Bunyan. Ele não encabeçou cruzadas contra uma igreja apóstata com o apoio de uma nação e príncipes ao seu lado como Martinho Lutero. Ele não fundou nenhuma denominação, que ligasse sua fé aos seus escritos e preservasse cuidadosamente seus melhores atos e palavras. Há Luteranos e Wesleyanos nos dias presentes, mas não há ‘Whitefieldianos'. Não! O grande evangelista foi um homem simples e sincero, que viveu para uma coisa apenas: pregar a Cristo. Fazendo isto, ele não se importava com mais nada. Os registros a respeito desse homem são amplos e plenos nos céus, não há dúvida, mas são poucos e escassos na terra.
Não devemos esquecer, além disso, que muitos em todas as épocas não vêem nada em homens como Whitefield senão fanatismo e entusiasmo. Eles abominam tudo que se pareça com ‘zelo' em religião. Eles detestam todos os que viram o mundo de cabeça para baixo, fogem do velho caminho da tradição e não deixam o diabo sozinho. Tais pessoas, não tenho dúvidas, nos diriam que o ministério de Whitefield somente produziu excitação temporária, e que sua pregação era mera extravagância, não havendo nada de especial a ser admirado no seu caráter. E de se temer que a dezoito séculos atrás houvessem dito o mesmo a respeito do apóstolo Paulo.
A pergunta, ‘Que bem fez Whitefield?' é uma pergunta que eu respondo sem a menor hesitação. Eu acredito que o bem direto que ele fez às almas imortais foi enorme. Eu vou adiante, - eu acredito que foi incalculável. Testemunhas dignas de crédito na Inglaterra, Escócia e América registraram sua convicção de que ele foi um instrumento na conversão de milhares de pessoas. Muitos, onde quer que ele pregasse, foram não apenas satisfeitos, excitados, e arrebatados, mas abandonaram seus pecados, e foram feitos reais servos de Deus. ‘Enumerar pessoas', eu não esqueço, é em todos os tempos uma prática objetável. Somente Deus pode ler os corações e discernir o trigo do joio. Muitos, sem dúvida, em dias de excitação religiosa, são tidos como convertidos, os quais não o foram de modo algum. Mas eu desejo que meus leitores compreendam que a minha alta avaliação da utilidade de Whitefield é baseada em sólida base. Eu peço que observem bem o que os contemporâneos de Whitefield pensavam sobre o valor de seus labores.
Franklin, o bem conhecido filósofo americano era um homem frio e calculista, um Quaker por profissão, o qual, não é de se esperar, que viesse a fazer uma elevada avaliação do trabalho de nenhum ministro. Ainda assim ele confessou: ‘era maravilhoso ver a mudança logo efetuada através da sua pregação nos hábitos dos habitantes de Philadelphia. De descuidados ou indiferentes sobre religião, parecia como se o mundo inteiro estivesse se tornando religioso.' O próprio Franklin, deve-se notar, foi o principal editor de obras religiosas na Philadelphia, e a sua prontidão em imprimir os sermões e jornais de Whitefield mostram o seu julgamento da influência que Whitefield exercia na mente dos americanos.
Maclaurin, Willison, Macculloch, foram ministros escoceses cujos nomes são bem conhecidos no norte de Tweed, sendo que os dois primeiros merecidamente alcançaram elevada posição como escritores teológicos. Todos eles têm testificado repetidamente que Whitefield foi um instrumento na realização de imenso bem na Escócia. Willison em particular diz, ‘que Deus o honrou com surpreendente sucesso entre pecadores de todas as classes e convicções'.
O velho Henry Venn de Huddersfield e Yelling foi um homem de forte bom senso, assim como de grande graça. Sua opinião foi que ‘se a grandeza, extensão, sucesso e a ausência de sentimentos interesseiros nos labores de um homem podem conferir distinção entre os filhos de Cristo, então estamos autorizados a afirmar que dificilmente qualquer um se igualou ao Sr. Whitefield'. Novamente ele diz: ‘Ele foi abundantemente bem sucedido nos seus amplos labores. Os selos do seu ministério, do início ao fim, estou persuadido, foram maiores do que poderiam ser creditados se o número pudesse ser fixado. Uma coisa é certa: sua espantosa popularidade devia-se apenas à sua utilidade, pois ele mal abria a sua boca como um pregador e Deus conferia uma extraordinária bênção às suas palavras.'
John Newton era um homem perspicaz, assim como um eminente ministro do Evangelho. Seu testemunho é: ‘Aquilo que determinou o caráter do Sr. Whitefield como uma luz resplandecente, sendo agora sua coroa de júbilo, foi o singular sucesso que o Senhor se agradou em conceder-lhe de ganhar almas. Parecia que ele nunca pregava em vão. Dificilmente talvez haja um local em todo o extensivo âmbito de seus labores onde possam ainda ser encontrados alguns que não o reconheçam gratamente como seu pai espiritual.'
John Wesley não concordava com Whitefield em vários pontos teológicos de não pouca importância. Mas quando pregou seu sermão fúnebre, ele disse: ‘Temos nós lido ou ouvido de alguma pessoa que tenha chamado tantos milhares, tantas miríades de pecadores ao arrependimento? Acima de tudo, temos nós lido ou ouvido de alguém que tenha sido um instrumento abençoado na condução de tantos pecadores das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus?'
Indubitavelmente, estes testemunhos são valiosos, mas há um ponto que eles não mencionaram. Este ponto é a quantidade do bem indireto que Whitefield realizou. Embora os efeitos diretos dos seus labores tenham sido grandes, eu acredito firmemente, que os efeitos indiretos foram ainda maiores. Seu ministério foi uma benção para milhares que talvez nunca o tenham visto ou ouvido.
Ele foi o primeiro, entre os evangelistas do século dezoito, a restaurar a atenção para as antigas verdades que produziram a Reforma Protestante. Suas constantes afirmações das doutrinas ensinadas pelos reformadores, suas repetidas referências aos artigos, homilias e escritos dos melhores teólogos ingleses, obrigaram muitos a pensar, compungindo-os a examinarem seus próprios princípios. Se toda verdade fosse conhecida, eu acredito que comprovaria que a ascensão e progresso do corpo evangélico da Igreja da Inglaterra recebeu um poderoso impulso de George Whitefield.
Mas este não é o único bem indireto que Whitefield fez em seus dias. Ele estava entre os primeiros a mostrar o caminho correto para enfrentar os ataques dos infiéis e céticos do cristianismo. Ele viu claramente que a arma mais poderosa contra tais homens não é um debate metafísico e dissertações críticas, mas pregar todo o Evangelho, viver todo o Evangelho, e disseminar todo o Evangelho. Os escritos de Leland, do jovem Sherlock, de Waterland, e de Leslie, não obtiveram a metade do sucesso que obteve a pregação de Whitefield e seus companheiros em reprimir a enchente de infidelidade. Estes foram os verdadeiros campeões do cristianismo. Infiéis raramente são abalados por meros debates abstratos. Os argumentos mais certos contra eles são a verdade do Evangelho e a vida do Evangelho.
Acima de tudo, ele foi o primeiro inglês que parece ter entendido plenamente o que o Doutor Chalmers apropriadamente chamou de sistema ofensivo. Ele foi o primeiro a ver que os ministros de Cristo devem fazer o trabalho de pescadores de homens. Eles não devem esperar que as almas venham a eles, mas devem ir atrás das almas, e ‘compeli-las a entrar'. Ele não sentava comodamente ao lado de sua lareira, como um gato num dia de chuva, lamentando-se a respeito da impiedade do país. Ele saía para enfrentar o diabo na sua cidadela; atacava o pecado e a impiedade face a face, e não lhes dava sossego. Ele penetrava nas ruas e becos atrás de pecadores; caçava a ignorância e o vício aonde quer que eles pudessem ser encontrados. Em resumo, ele aplicou um sistema de ação, que até o seu tempo era comparativamente desconhecido no seu país, mas um sistema o qual uma vez iniciado, nunca cessou de ser empregado até o dia de hoje. Missões nas cidades, missões nos grandes centros, sociedades de visitas distritais, pregações a céu aberto, missões nacionais, serviços especiais, pregações em teatros, tudo são evidências de que o valor do ‘sistema ofensivo' é agora generalizadamente reconhecido por todas as igrejas. Agora nós entendemos melhor como trabalhar do que entendíamos cem anos atrás. Mas nunca esqueçamos que o primeiro homem a dar início a estes tipos de atividades foi George Whitefield. Vamos dar a ele o crédito que merece.
O caráter peculiar da pregação de Whitefield é o próximo assunto que demanda algumas considerações. Os homens naturalmente desejam saber qual foi o segredo do seu sucesso sem paralelo. O assunto está envolto em consideráveis dificuldades, e não é tarefa fácil formar um julgamento correto a seu respeito. A idéia comum de muitas pessoas de que ele era um mero e comum metodista exaltado, notável por nada mais a não ser sua grande fluência, forte doutrina e uma poderosa voz, não suporta uma momentânea investigação. O Dr. Johnson foi tolo o suficiente para dizer, que‘ele vociferava e impressionava, mas não chamava mais atenção do que um charlatão; e que ele chamava atenção não por fazer melhor do que os outros, mas porque fazia algo estranho'. Mas Johnson foi tudo, exceto infalível nas suas opiniões sobre pastores e religião. Tal teoria não tem validade. Ela contradiz fatos inegáveis.
E fato que nenhum pregador na Inglaterra jamais obteve tanto sucesso em atrair a atenção de tão grandes multidões como Whitefield ao pregar constantemente ao redor de Londres. Nenhum pregador jamais foi tão universalmente popular em cada país que visitou, Inglaterra, Escócia e América. Nenhum pregador jamais manteve sua influência tão completamente sobre seus ouvintes como ele o fez por 34 anos. Sua popularidade nunca desvaneceu. Ela era tão grande no fim dos seus dias como o foi no início. Onde quer que ele pregasse, os homens deixavam suas lojas e empregos para reunirem-se ao redor dele, e ouvir como quem ouve para a eternidade. Só isso já é um grande fato. Obter a atenção das ‘massas' por um quarto de século, e pregar incessantemente por todo este tempo é uma evidência de um poder não comum.
Outro fato, é que a pregação de Whitefield produzia um poderoso efeito em pessoas de todos os níveis. Ele ganhou a admiração das altas e baixas camadas, dos ricos assim como dos pobres, dos eruditos assim como dos ignorantes. Se a sua pregação houvesse sido popular apenas entre os ignorantes e pobres, nós poderíamos pensar na possibilidade de que havia pouco nela exceto declamação e barulho. Mas, longe de ser este o caso, ele parece ter sido aceito por um bom número de nobres e pessoas bem educadas. O Marquês de Lothian, o Conde de Leven, o Conde de Duchan, o Lord Rae, o Lord Dartmouth, o Lord James A. Gordon, poderiam ser citados entre os seus mais calorosos admiradores, além de Lady Huntyngdon e uma grande quantidade de senhoras da Corte.
E um fato que eminentes críticos e homens de letras, como o Lord Bolingbroke e o Lord Chesterfield, foram pessoas que se deleitavam em ouvi-lo freqüentemente. Era reconhecido que mesmo o frio e artificial Chesterfield aquecia-se com a eloqüência de Whitefield. Bolingbroke disse: ‘Ele é o homem mais extraordinário do nosso tempo. Ele tem a eloqüência mais impressionante que jamais ouvi em qualquer pessoa.' Franklin, o filósofo, não mediu palavras ao falar dos poderes da sua pregação. Hume, o historiador, declarou que valia a pena viajar vinte milhas para ouvi-lo.
A verdade é que fatos como estes não podem ser invalidados. Eles derrubam completamente a teoria de que a pregação de Whitefield não foi nada, exceto barulho e exaltação. Bolingbroke, Chesterfield, Hume, e Franklin não eram facilmente enganáveis. Eles não eram juízes insignificantes de eloqüência. Eles estavam provavelmente entre os críticos mais qualificados de seus dias. Suas opiniões imparciais e sem preconceito parecem-me suprir uma prova inquestionável de que deve ter havido algo muito extraordinário a respeito da pregação de Whitefield. Mas, afinal, a questão permanece sem ser respondida: qual foi o segredo da popularidade e efetividade sem rival de Whitefield? Eu admito francamente que, devido à escassez das fontes que possuímos para formar nosso julgamento, a pergunta é difícil de ser respondida.
A pessoa que folhear os 75 sermões publicados de autoria de Whitefield, provavelmente ficará muito desapontada. Ela não verá neles um intelecto imponente ou profundidade de mente. Não achará neles uma profunda filosofia, nem pensamentos extraordinários. Mas, deve-se observar, entretanto, que a grande maioria foi anotada abreviadamente por repórteres, e publicados sem correção. Estes dignos homens parecem ter feito seu trabalho muito indiferentemente, e eram evidentemente ignorantes quanto à pontuação, parágrafos, gramática, e quanto ao Evangelho. A conseqüência é que muitas passagens nestes 75 sermões são o que o Bispo Latimer chamaria de uma ‘desfiguração', e o que nós chamaríamos hoje em dia de uma completa desordem. Não é de admirar que o pobre Whitefield tenha dito em uma de suas melhores cartas datada de 26 de setembro de 1769: ‘Eu desejaria que você tivesse advertido contra a publicação de meu último sermão. Ele não está tal qual eu preguei. Em alguns lugares a publicação me faz falar com discordância, e até sem sentido. Em outros lugares o sentido e a conexão são destruídos por parágrafos desconexos, de modo que o todo está totalmente impróprio para a leitura do público.'
Entretanto, eu me aventuro a dizer ousadamente, que com todas as suas faltas, os sermões impressos de Whitefield recompensarão sua leitura. O leitor deve lembrar-se de que eles não foram preparados cuidadosamente para impressão, como os sermões de Melville ou Bradley, mas foram pessimamente registrados, paragrafados, e pontuados, devendo lê-los com isto continuamente em sua mente. Além disso, deve lembrar-se que uma composição em inglês para ser falada a ouvintes, e uma composição em inglês para leitura privada, são quase que duas línguas diferentes; de modo que sermões bons para serem pregados são ruins quando lidos. Lembremo-nos destas duas coisas, e julguemos de acordo, e eu estaria muito enganado se não viéssemos a encontrar muito o que admirar em muitos dos sermões de Whitefield. Da minha parte, eu devo dizer claramente que eles são grandemente subestimados.
Deixe-me agora destacar o que parece ter sido as características distintivas da pregação de Whitefield.
Whitefield pregava um Evangelho singularmente puro. Talvez poucos homens tenham dado aos seus ouvintes tanto trigo e tão pouco restolho. Ele não se levantava para falar sobre sua denominação, sua causa, seu interesse ou seu ofício. Ele estava perpetuamente lhe falando a respeito dos seus pecados, do seu coração, de Jesus Cristo, do Espírito Santo, da absoluta necessidade de arrependimento, fé e santidade, do modo como a Bíblia apresenta estes importantes assuntos. ‘Oh, que justiça a de Jesus Cristo!' Ele sempre dizia: ‘Eu devo ser desculpado se menciono isso em quase todos os meus sermões.' Pregação desse tipo é a pregação que Deus se deleita em honrar. Ela deve ser preeminentemente uma manifestação da verdade.
A pregação de Whitefield era singularmente lúcida e simples. O que quer que seus ouvintes pensassem da sua doutrina, não podiam deixar de entender o que ele queria dizer. Seu estilo de falar era fácil, claro e coloquial. Ele parecia abominar sentenças longas e complicadas. Ele sempre tinha em vista o seu alvo e se dirigia diretamente para lá. Ele dificilmente atrapalhava seus ouvintes com argumentos obscuros e raciocínios intrincados. Afirmativas bíblicas simples, ilustrações adequadas, e exemplos pertinentes, eram as armas mais comuns que ele usava. A conseqüência era que seus ouvintes sempre o entendiam. Ele nunca atirava acima das cabeças dos seus ouvintes. Aí está outro importante elemento para o sucesso do pregador. Ele deve esforçar-se de todos os modos para ser entendido. O arcebispo Usher tinha um ditado muito sábio: ‘Fazer coisas simples parecerem difíceis é coisa que qualquer homem pode fazer, mas fazer coisas difíceis, simples, é a obra de um grande pregador'.
Whitefield era um pregador singularmente ousado e direto. Ele nunca usava aquela expressão indefinida ‘nós', que parece tão peculiar nos nossos púlpitos, e que apenas deixa a mente do ouvinte em um estado enevoado e confuso. Ele enfrentava os homens face a face, como alguém que tem uma mensagem de Deus para eles: ‘Eu vim aqui para lhe falar a respeito da sua alma.' O resultado era que muitos dos seus ouvintes costumavam pensar que os seus sermões eram dirigidos especialmente a eles. Ele não ficava contente como muitos, em apenas insistir em uma aplicação pobre, como que um apêndice no final de um longo discurso, pelo contrário, um constante veio de aplicação corria através de todos os seus sermões. ‘Isto é para você, e isto é para você'. Seus ouvintes nunca eram deixados sozinhos.
Outra característica marcante da pregação de Whitefield era o seu singular poder de descrição. Os árabes têm um provérbio que diz: ‘o melhor orador é aquele que pode transformar os ouvidos dos homens em olhos.' Whitefield parece ter tido uma faculdade peculiar para fazer isto. Ele dramatizava tão plenamente seu assunto, que parecia fazê-lo mover-se e andar diante dos seus olhos. Ele costumava traçar um desenho tão vivo das coisas que estava tratando, que seus ouvintes podiam crer que na verdade as viam e ouviam. ‘Em uma ocasião,' diz um de seus biógrafos, ‘Lord Chesterfield estava entre seus ouvintes. O grande pregador ao descrever a miserável condição de um pecador não convertido, ilustrou o assunto descrevendo um mendigo cego. A noite estava escura e o caminho perigoso. O pobre mendicante foi abandonado pelo seu cachorro próximo da beira de um precipício, e não tinha nada para ajudá-lo a apalpar seu caminho senão sua bengala. Whitefield empolgou-se tanto com seu assunto e o descreveu com tal poder gráfico, que todo o auditório ficou em total silêncio e sem respirar, como se estivesse vendo os movimentos do pobre velho homem; e finalmente, quando o mendigo estava a ponto de dar o passo fatal que o faria precipitar-se do despenhadeiro para inevitável destruição, Lord Chesterfield correu para salvá-lo exclamando em alta voz, ‘Ele caiu. Ele caiu!' O nobre Lord tinha sido tão inteiramente arrebatado pelo pregador, que esqueceu-se de que tudo era apenas uma descrição.'
Outra característica dominante da pregação de Whitefield era o seu tremendo fervor. Um homem pobre e sem educação disse que ‘ele pregava como um leão.' Ele conseguia mostrar ao povo que ele pelo menos cria em tudo que estava dizendo, e que o seu coração, alma, mente, e força, estavam empenhados em fazê-los acreditar nisto também. Os seus sermões não eram como os disparos vespertinos de canhão em Portsmouth, um tipo de descarga formal, disparada continuamente, mas que não perturba ninguém. Eles eram todos cheios de vida e de fogo. Não havia como escapar deles. Dormir era praticamente impossível. Você tinha que ouvir quer gostasse ou não. Havia neles uma santa violência que tomava de assalto a sua atenção. Você seria facilmente conquistado por sua energia antes que tivesse tempo de considerar o que fazer. Isto, podemos estar certos, era um dos segredos do seu sucesso. Nós devemos convencer os homens, de que nós mesmos somos sinceros, se quisermos ser acreditados. A diferença entre um pregador e outro, freqüentemente não está tanto nas coisas que são ditas, quanto no modo como são ditas.
Foi registrado por um de seus biógrafos que um senhor americano foi ouvi-lo, pela primeira vez, em conseqüência de um relato que ouvira dos seus poderes de pregação. O dia estava chuvoso, a congregação comparativamente pequena e o início do sermão um tanto quanto pesado. Nosso amigo americano começou a dizer a si mesmo: ‘Este homem não é nenhum grande prodígio, afinal de contas'. Ele olhou ao redor e percebeu a congregação tão pouco interessada quanto ele mesmo. Um homem de idade, em frente do púlpito, havia adormecido. Mas subitamente, Whitefield interrompeu. Sua expressão mudou. E então exclamou subitamente em um tom alterado: ‘Se eu tivesse vindo falar a vocês em meu próprio nome, bem que vocês poderiam descansar seus cotovelos em seus joelhos, e suas cabeças nas mãos e dormir; e apenas olharem aqui e ali, dizendo:do que este tagarela está falando? Mas eu não vim em meu próprio nome. Não! Eu vim em nome do Senhor dos Exércitos!' (então ele baixou as mãos e os pés com tanta força que fez com que o prédio tremesse), ‘E eu preciso ser ouvido.' A congregação assustou-se. O homem de idade logo acordou. ‘Ah, Ah.” Gritou Whitefield fixando nele os olhos, ‘eu o acordei, não foi? Era exatamente o que eu tencionava. Eu não vim aqui para pregar a troncos e pedras: eu vim a vocês em nome do Senhor dos Exércitos e preciso e terei uma audiência.' Os ouvintes foram rapidamente arrancados de sua apatia. Cada palavra do sermão a partir daí foi ouvida com profunda atenção, e o senhor americano nunca mais esqueceu o episódio.
Outra característica da pregação de Whitefield que merece uma nota especial era a enorme carga de emoção e sentimentos que continha. Não era coisa incomum para ele chorar profusamente no púlpito. Cornelius Winter, que freqüentemente o acompanhou em suas últimas jornadas, foi tão longe ao ponto de dizer que dificilmente o presenciara terminar um sermão sem algumas lágrimas. Mas, não parece ter havido nada de fingimento nisto. Ele se emocionava intensamente pelas almas diante dele e seus sentimentos encontravam uma saída nas lágrimas. De todos os ingredientes do seu sucesso, nenhum, eu suspeito, foi tão poderoso como este. Isto despertava afeições e tocava fontes secretas nos homens, as quais nenhuma argumentação e demonstração poderiam mover. Isto suavizava os preconceitos que muitos haviam concebido contra ele. Eles não podiam odiar o homem que chorava tanto por suas almas. ‘Eu vim ouvi-lo,' alguém disse a ele, ‘com os meus bolsos cheios de pedras, com a intenção de quebrar a sua cabeça; mas o seu sermão alcançou o melhor de mim e quebrou o meu coração.' Uma vez que alguém se torne convencido de que um homem o ama, este ouvirá alegremente o que ele tem a dizer.
Eu agora pedirei ao leitor que acrescente a esta análise da pregação de Whitefield o fato de que até por natureza ele possuía vários dos dons mais raros, os quais habilitam um homem a ser um orador. Seus gestos eram perfeitos - tão perfeitos que até mesmo Garrick, o famoso ator, o louvava sobremaneira. Sua voz era tão poderosa quanto seus gestos - tão poderosa que ele podia fazer com que trinta mil pessoas o ouvissem de uma vez, e ainda assim tão musical e bem entoada que alguns diziam que ele podia arrancar lágrimas pelo modo como pronunciava a palavra ‘Mesopotâmia'.Sua postura no púlpito era tão curiosamente graciosa e fascinante que era dito que as pessoas que o ouviam, em cinco minutos estavam esquecidas de que ele era vesgo. Sua fluência e domínio de uma linguagem apropriada eram da mais alta ordem, inspirando-o sempre a usar a palavra certa e a colocá-la no correto lugar. Acrescente, eu repito, estes dons às coisas já mencionadas e então considere se não há o suficiente em nossas mãos para explicar seu poder e popularidade como pregador.
Da minha parte, não hesito em dizer que acredito que nenhum pregador inglês jamais possuiu tal combinação de excelentes qualificações como Whitefield. Alguns, sem dúvida, o superaram em alguns dos seus dons; outros, talvez, o igualaram em outros. Mas, quanto a uma combinação bem balanceada de alguns dos mais finos dons que um pregador possa ter, unidos a uma voz, postura, estilo, gestos e domínio de palavras, Whitefield, eu repito minha opinião, está sozinho. Eu acredito que nenhum outro pregador inglês, morto ou vivo, jamais o igualou. E eu suspeito que sempre descobriremos que exatamente na proporção em que um pregador se aproxima dessa curiosa combinação de raros dons os quais Whitefield possuía, exatamente nesta proporção eles obtém o que Clarendon define ser a verdadeira eloqüência - ‘um estranho poder de se fazer acreditar.'
A vida íntima e o caráter pessoal desse grande herói espiritual do século passado são um ramo do meu assunto no qual não me demorarei. De fato, não há necessidade para fazer isso. Ele era um homem singularmente transparente. Não havia nada sobre ele que requeresse apologia ou explicação. Suas faltas e boas qualidades eram ambas claras e evidentes como o meio-dia. Portanto, eu me contentarei em simplesmente destacar as características proeminentes do seu caráter até onde for possível serem deduzidas de suas cartas e dos relatos dos seus contemporâneos, e então trazer meu esboço dele a uma conclusão.
Ele era um homem de profunda e sincera humildade. Ninguém pode ler as suas mil e quatrocentas cartas, publicadas pelo Doutor Gillies sem observar isto. Repetidas vezes, no próprio apogeu de sua popularidade, nós o encontramos falando de si mesmo e do seu trabalho nos termos mais baixos. ‘Deus, tem misericórdia de mim, um pecador', ele escreve em 11 de setembro de 1753, ‘e dá-me, por amor da Tua infinita misericórdia, um coração humilde, agradecido e resignado. Eu sou verdadeiramente mais vil do que o mais vil dos homens, e fico espantado de usares tal miserável como eu'. ‘Que nenhum dos meus amigos,' ele escreve em 27 de dezembro de 1753, ‘clame a tal verme indolente, morno e inútil: poupa-te a ti mesmo. Ao invés disso, estimulem-me, eu suplico, dizendo: acorda, dorminhoco, e começa a fazer alguma coisa para o teu Deus.' Linguagem como esta, sem dúvida, parece tolice e fingimento para o mundo; mas o leitor da Bíblia bem instruído verá nela a experiência do coração de todos os santos mais brilhantes. E a linguagem de homens como Baxter, Brainerd e M'Cheyne. E a mesma inclinação que havia no inspirado Apóstolo Paulo. Aqueles que têm mais luz e graça são sempre os homens mais humildes.
*Traduzido por Paulo R. B. Anglada, a partir de J. C. Ryle, Christian Leaders of 18th. Century (reprint, Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1978), 149-79. Revisado por Cláudio Vilhena e Emir Bemerguy Filho.