Antes
de escrever sobre esse assunto, quero deixar claro que creio que há verdadeiros
cristãos que amam a Bíblia, que são contrários ao dízimo. Não creio que todos
que sejam contrários à prática o façam por não quererem dar dinheiro a igreja,
alguns podem ser até mesmo mais generosos do que aqueles que são defensores do
dízimo. Lógico que existem questões fundamentais, que aqueles que as negam não
poderiam de modo algum ser considerados cristãos, não creio que o dízimo esteja
entre essas questões fundamentais, porém vou tentar demonstrar aqui que quem se
posiciona contrariamente ao dízimo está errado.
Para
alguns, pode parecer estranho que haja cristãos que dizem que a prática do
dízimo está errada, mas não podemos ignorar que o argumento deles tenha algum
peso. De modo geral, aqueles que são contra a prática do dízimo o são, pois
consideram que, na Nova Aliança, após a morte e ressureição de Cristo não há
mandamento que diga que os cristãos devem pagar o dízimo e somente que eles
devem pagar ofertas e, portanto os cristãos não estão mais sobre a obrigação de
pagar os dízimos.
De modo
geral, para se chegar a essa conclusão deve-se ter o seguinte pressuposto em
mente, eu só tenho obrigação de cumprir algo se estiver confirmado no novo
mandamento. Será que Cristo revogou a lei? Não foi isso que Ele disse no sermão
em que demonstrou a correta interpretação dela “Não penses que vim revogar
a lei ou os Profetas, não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade
vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da
lei, até que tudo se cumpra.”(Mateus 5.17-18). Devemos compreender a divisão
que os teólogos fazem em relação a lei.
Lei
cerimonial: Relacionados aos sacrifícios e a separação do povo de Israel dos
demais povos, foi cumprida em Cristo e estamos livres delas, eram sombras que
apontavam para a Cristo. (Você pode compreender melhor isso estudando a
epístola aos Hebreus).
Lei
Cívil: Lei do estado teocrático de Israel, não somos mais cidadãos do estado de
Israel, essa lei pode ser usada como modelo para o desenvolvimento de um
governo civil, mas é para ser aplicado por governos e não pela igreja, apenas
ao estado (Rm 13.1-6) foi dado o poder da espada (de aplicar a pena capital, ou
seja pena de morte) e não a igreja.
Lei
Moral: Estamos sobre obrigação de seguir essa lei, fomos salvos para andar
segundo ela (Ef 2.10, Ti 2.14, Jo 14.15, 1 Jo 2.3-4, 1 Jo 5.2-3).
É
importante compreendermos que a lei moral não é só aquilo que está prescrito no
Novo testamento. Por exemplo, você acha imoral fazer sexo com um animal? E
casar com sua irmã, irmão, tio, ou tia? O novo testamento não proíbe esse tipo
de coisa, apenas o antigo testamento, se pensarmos que apenas o que está no
novo vale para nós, não podemos considerar imoral nenhuma dessas coisas.
Portanto,
a menos que o dízimo seja considerado como lei cerimonial ou civil ou que
esteja implícito no novo testamento que não devemos dar o dízimo não poderíamos
considerar que ele não seja mais obrigatório.
Podemos
afirmar de maneira clara que ele não faz parte da lei civil, já que ele já era
dado antes de Moisés. Vemos que Abraão pagou o dízimo a Melquisedeque (Gn
14.18-20).
Porém
poderia o dízimo ser considerado uma lei cerimonial? O dízimo sustentava os
sacerdotes, que estavam ligados ao templo, poderíamos por isso dizer que o
dízimo não é mais obrigatório? Se considerarmos o mesmo exemplo anterior,
podemos dizer que antes de existir o sacerdócio levítico já existia o dízimo. É
correto que também existia a circuncisão e os sacrifícios, mas essas coisas
foram claramente modificadas, a circuncisão pelo batismo e os sacrifícios
apontavam claramente para Cristo. Não podemos dizer o mesmo sobre os dízimos,
não há nenhuma advertência no Novo Testamento de que seria errado os cristãos
fazerem isso.
Além
disso, há algo que Paulo fala muito útil para dizermos que o dízimo ainda é
válido, lembre que ele falou isso sobre a Nova Aliança:
“Não sabeis vós que os que prestam serviços
sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tira
sustento” (1 Coríntios 9.13)
Apesar
de alguns cristãos invalidarem o Antigo Testamento, não é essa a atitude Paulo
para com o Antigo Testamento, como não foi a atitude de Cristo e nem de nenhum
dos apóstolos. Além disso, Paulo está defendendo o direito daquele que prega
viver apenas de pregar o evangelho. Se ele tem o direito de viver de pregar o
evangelho, donde ele tirará o sustento? Os que serviam no templo eram
sustentados pelos dízimos, será que considerando o exemplo de Paulo não deve
ser essa a forma de sustento de quem vive do evangelho?
Além
disso Paulo ensina cada um a contribuir segundo tiver proposto no coração (2
Cor 9.7) e segundo nossas posses (2 Cor 8.11), tendo que estipular um valor
você prefere confiar em sua própria sabedoria ou naquilo que o próprio Deus
estabeleceu?
Por
último, acho importante lembrarmos de uma advertência de Cristo:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas,
porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado
os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé;
devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt 23.23)
Cristo
não diz que dar o dízimo era errado, mas apenas que isso não é a coisa mais
importante. Devemos fazer isso sem esquecer as coisas mais importantes.
Uma
defesa bem mais elaborada poderia ser formulada, mas acho que esses princípios
aqui são importantes para entendermos que o dízimo ainda é uma obrigação do
cristão. Quando fazemos isso declaramos que tudo pertence ao Senhor, apenas
devolvemos a Ele uma parte. Além disso, dez por cento deveria ser o mínimo a
ser considerado, se não damos nem isso para sustentar a obra d’Ele será que
poderíamos considerar que temos dado prioridade ao seu Reino (Mt 6.33). Se você
acha que não é correto dar os dízimos somente pense sobre isso.
PS:
Após ter escrito esse post encontrei esse texto que indico no link abaixo do
Pb. Solano Portela, com bons argumentos em defesa do dízimo. Não modifiquei meu
texto depois de ter lido esse, apenas acrescentei uma referência bíblica a
mais.
Além do
link acima acho importante ver o que o Pb. Solano Portela escreveu em um
comentário no blog, no
qual ele é um dos escritores, segue abaixo.
Resumindo
minha posição sobre o dízimo:
1.
A contribuição proporcional antecede a lei civil e judicial de Israel.
Aparentemente, pelos registros bíblicos, o costume era uma prática do povo de
Deus e das pessoas tementes a Deus na época dos patriarcas.
2.
Logicamente, a prática foi incorporada na legislação de Israel. Junto com seu
caráter mandatório, foram estipuladas outras contribuições e taxas. O
entrelaçamento, da época, entre o governo civil e as autoridades religiosas
(normal, pois era uma teocracia) faz com que essas taxas fossem também os
impostos para a manutenção do governo, mas não excluiu os aspectos
sacramentais, simbólicos e religiosos - de reconhecimento de Deus como o dono
de tudo e de todos e nós como mordomos seus.
3.
Quem fizer defesa de dízimo baseado na legislação mosaica, o faz
equivocadamente e, por coerência, deveria advocar o apedrejamento de
quebradores do dia de descanso, bem como as leis dietéticas. Até a utilização
da expressão "trazei todos os dízimos à casa do tesouro" aplicada
anacronicamente aos nossos dias, é questionável e não reflete uma boa
hermenêutica - a não ser para o explorar o princípio que estava por trás disto.
4.
Por outro lado, considerando que a prática da contribuição proporcional não foi
iniciada nesse período, há de se questionar se o seu abandono é algo a ser
defendido, propagado, pregado. Ou seja - será que isso contribui para o bom
andamento da Igreja?
5.
Indo ao Novo Testamento, não vemos revogação do princípio da contribuição
proporcional, nem pregação contra ele, nem indicação de que ele se constituiria
em uma forma legalista de adoração. Pelo contrário, em algumas situações
(coloco essas questões mais extensivamente no meu artigo) Paulo utiliza a
linguagem de prática de contribuição proporcional, como sendo uma forma a ser
seguida pelos fiéis.
6.
Além disso, no próprio Novo Testamento, o autor de Hebreus, quando faz
referência ao incidente de Abraão, para ressaltar a ascendência de
Melquisedeque sobre a Lei Ceirmonial do AT, demonstrando a permanência do
sacerdócio de Cristo, faz menção à dádiva do dízimo. Por que essa referência?
Se o dízimo é algo que não é importante; que deve, na realidade, ser abolido;
que pertence apenas "à época da lei", por que ressaltar a dádiva,
apenas confundindo seus leitores? Ou será que era, realmente, importante
mencionar coo algo que está acima da lei cerimonial?
7.
Ainda no NT, Jesus não prega contra o dízimo e, na realidade, reforça ele,
dirigindo-se aos Fariseus.
8.
A prática de ofertas voluntárias não poderia ser, na minha opinião, a
contrapartida neo-testamentária ao dízimo, pois elas já existiam, igualmente,
no antigo testamento (desenvolvo, também, com maior substanciação, esse ponto -
de ofertas no Antigo Testamento, em meu artigo). No meu entendimento, as
ofertas são algo acima e que transcendem uma sistematização no dar.
9.
Se considerarmos etimologicamente a designação da contribuição proporcional
(dízimo), vamos cair nos dez por cento. Será possível estabelecermos outro
padrão? Cinco por cento? Dois por cento? Trinta por cento (como ouvi um
pregador, certa vez, dizer que era assim que ele fazia e quase procurar
impingir isso como ideal)? Talvez, mas isso não terá uniformidade ou aceitação
abrangente e terminaríamos em um individualismo subjetivo. Como poderia ser
proporcional, se os percentuais variassem de comunidade para comunidade, ou até
dentro da mesma comunidade? Temos, realmente, que "inventar" algo
novo?
10.
Posso até concordar que essa questão, por não ser determinação
neo-testamentária explícita, talvez não devesse ser alvo de legislação
denominacional ou eclesiástica, ficando no foro íntimo. Mas me parece que a
idéia da contribuição proporcional:
a.
É Bíblica.
b.
Auxilia o homem, indisciplinado por natureza, a se organizar a sistematizar a
sua contribuição.
c.
Faz com que as comunidades (vejam, estou sucumbindo à terminologia
contemporânea) e igrejas locais reflitam o poder aquisitivo dos congregados e
tenham condições de planejar e projetar suas ações e ministérios.
d.
A contribuição sistemática alegra a Deus e não impede que contribuamos com
alegria (será que todo o povo de Deus no AT, onde não há dúvida que o dízimo
era requerido, contribuía por constrangimento, sem alegria? De onde tiramos
essa noção, de que sistematização significa escravidão?);e. Assim, mesmo sem se
constituir ponto de julgamento de um sobre o outro, ou da igreja sobre o um,
deveria ser pregada e propagada dos púlpitos, como um estudo bíblico válido e
aplicável.
Autor:
Ivan Junior







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