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Bate-papo sobre o projeto Restaurando a Mente

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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Oração a Trindade - Agostinho de Hipona


Oração à Trindade

Senhor nosso Deus, nós cremos em ti, Pai, Filho e Espírito Santo. Pois a Verdade não teria dito: Ide, batizai a todos os povos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28:19), se não fosses Trindade. Nem nos ordenarias que fôssemos batizados, ó Senhor nosso Deus em nome de alguém que não é o Senhor Deus. Nem a voz divina diria: Ouve, ó Israel, o Senhor teu Deus é o único Deus (Dt 6:4), se não fosses Trindade e, ao mesmo tempo, o único senhor Deus. E se tu, Deus Pai, fosses Pai e ao mesmo tempo fosses Filho, teu Verbo, Jesus Cristo; e fosses o mesmo Dom, que é o Espírito Santo, não leríamos nas Escrituras da Verdade: enviou Deus o se Filho (Gl 4:4 e Jo 3:7). Nem tu, ó Filho Unigênito, dirias do Espírito Santo: aquele que eu vos enviarei da parte do Pai (Jo 15:26).

Dirigindo todo meu empenho por essa regra de fé, na medida de minhas forças e o quanto me tornaste capaz, eu te procurei e desejei ver pelo entendimento o que creio. Muito discuti e trabalhei.

Ó Senhor meu Deus, única esperança minha, ouve-me, a fim de que jamais me entregue ao cansaço e não mais queira te buscar, mas ao contrário que sempre procure tua face, como todo o ardor (Sl 104:4). Fortalece-me aquele que te busca, tu que permitiste seres encontrado, e acumulaste de esperança de sempre mais te encontrar.

Eis em tua presença a minha força e a minha fraqueza: conserva a força e cura a fraqueza. Na tua presença, minha ciência e minha ignorância. Lá onde me fechaste, abre-me ao bater. Que de ti me lembre, que te compreenda e que te ame! Faze-me crescer nesses dons, até que restaures totalmente.

Sei que está escrito: no muito falar não faltará pecado (Pv 10:19). Mas, oxalá, falasse eu tão-somente para anunciar tua palavra e dirigir-te meus louvores! Não apenas evitaria o pecado, mas alcançaria bons merecimentos, ainda que assim me excedesse no falar. Pois aquele homem, por ti amado, não teria aconselhado cometer pecado a seu filho e irmão na fé, ao qual escreveu dizendo: importuno (IITm 4:2).

Poder-se-á dizer que não falou muito quem não cessava, Senhor, de anunciar tua Palavra, não somente no momento oportuno, mas também no inoportuno? Não teria sido certamente muito, mas o necessário. Livra-me, ó Deus, do muito falar, o que me atormenta, no interior de minha alma, mísera, na tua presença, mas que se refugia em tua misericórdia.

Pois não me calam os pensamentos, mesmo calando-me as palavras. E senão pensasse somente no que é de teu agrado, não te suplicaria que me livrasses do muito falar. Mas muitos de meus pensamentos, tu os conheces, são pensamentos humanos, por isso mesmo vãos (Sl 93:11). Concede-me não e neles não me demorar como sonhador. Não tenha sobre mim a força de levar-me a agir impulsionado por eles, mas com teu auxílio, minhas decisões estejam protegidas de suas investidas e defendida esteja minha consciência.

Um sábio, falando de ti em seu livro, conhecido pelo nome de “Eclesiástico”, diz: Por muito que digamos, muito ficará por dizer, mas o resumo de tudo o que e pode dizer é: que Deus é tudo ( Eclo 42:29).

Por tanto, quando chegarmos à tua presença, cessará o muito que dissemos, mas muito nos ficará por dizer e tu permanecerás só, tudo em todos (ICo 15:28), e então eternamente cantaremos um só cântico, louvando-te em um só movimento, em ti estreitamente unidos.
Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de ti nestes livros, de ti vem. Reconheçam-no os teus, e se algo há meu, perdoa-me e perdoem-me os teus. AMÉM.

A Trindade, Agostinho de Hipona, 354-430, pg. 555-557, Editora Paulus.

sábado, 28 de julho de 2012

Comentário de Gálatas 3:6 - João Calvino





“Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça” (Gálatas 3:6)

É mister primeiramente indagar o que Paulo pretendia dizer com o vocábulo fé; em segundo lugar. O que significa Justiça; e, em terceiro lugar, por que a fé é representada como a causa da justificação. Fé, neste versículo, não deve ser entendida como um tipo de convicção que os homens podem ter a respeito da verdade de Deus. Embora Caim tenha exercido inúmeras vezes fé no Deus que pronunciou castigo contra ele, essa mesma fé não lhe foi de qualquer proveito para obtenção da justiça. Abraão foi justificado mediante o crer, porque, ao receber de Deus uma promessa de bondade paternal ele a aceitou como infalível. A fé tem uma relação a um respeito tal pela Palavra de Deus que pode capacitar os homens a descansar e a confiar em Deus.

No tocante à palavra justiça, é preciso observar a fraseologia de Moisés. Ao afirmar que Abraão “creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15:6), ele queria dizer que o justo é aquele indivíduo reputado como tal aos olhos de Deus. Ora, visto que os homens não possuem qualquer justiça em si mesmo, só podem obtê-la por imputação, porque Deus reputa como justiça a fé dos que crêem. Somos, pois informados de que nossa justificação é mediante a fé (Rm 3:21; 5:1), não porque a fé infunde em nós um hábito ou uma qualidade, mas porque somos aceitos por Deus.

Mas, por que à fé recebe tamanha honra, a ponto de ser chamada a causa de nossa justificação: Primeiramente, temos de observar que a fé é apenas uma causa instrumental. Falando de modo restrito, a nossa justiça não é nada mais do que a nossa aceitação graciosa por parte de Deus, a aceitação sobre a qual temos falado, nós a recebemos por meio da fé. Assim, ao atribuirmos à fé a justificação do homem, não estamos tratando da causa principal, mas apenas indicando o caminho pelo qual os homens podem chegar à verdadeira justiça. Portanto, esta justiça não é uma qualidade inerente nos homens, e sim o dom de Deus. Esta justiça só pode ser desfrutada por meio da fé. Tampouco é uma recompensa justa devida à fé, porque recebemos por meio da fé o que Deus nos dá gratuitamente. Todas as expressões semelhantes à que agora citamos têm o mesmo sentido: somos “justificados gratuitamente por sua graça” (Rm 3:24); Cristo é nossa justiça. A misericórdia de Deus é a causa de nossa justiça. A morte e a ressurreição de Cristo obtiveram a justiça por nós. A justiça é outorgada por meio do evangelho. Obtemos a justiça pela instrumentalidade da fé.

Isto revela o ridículo do erro de tentar reconciliar as duas proposições: que somos justificados pela fé, ao mesmo tempo, pelas obras. Pois aquele é justo “pela fé” (Hc 2:14; Hb 10:38) é pobre e destituído de justiça pessoal, descansando tão-somente na graça de Deus. Esta é a razão por que Paulo conclui na Epístola aos Romanos, que Abraão, tendo obtido a justiça pela fé, não tinha qualquer direito de se gloriar diante de Deus (Rm 4:2). Pois não se diz que a fé lhe foi imputada como parte da justiça, mas simplesmente como justiça, de modo que a sua fé era verdadeiramente a sua justiça. Além disso, a fé não olha para qualquer outra coisa, a nãos ser para misericórdia de Deus e para o Cristo morto e ressurreto. Todo o mérito das obras é excluído como causa da justificação, quando a justiça é atribuída à fé. Pois embora a fé se aproprie da imerecida bondade de Deus, de Cristo com todas os seus benefícios, do testemunho de nossa adoção contido no evangelho, ela é universalmente contrastada com a lei, com o mérito das obras e com a dignidade humana. A noção dos sofistas (de que a fé é contrastada somente com as cerimônias) pode ser reprovada imediatamente e sem dificuldades, com base no contexto desta passagem. Portanto, lembremo-nos de que aqueles que são justos mediante a fé são justos fora de si mesmos, ou seja, em Cristo.

Isto também serve como refutação do ardiloso sofisma de pessoas que evitam o raciocínio de Paulo. Moisés, dizem eles, dá à bondade o nome de justiça; assim, a sua intenção era apenas dizer que Abraão foi reputado como um homem bom, em virtude de ter crido em Deus. Hoje, espíritos levianos, levantados por Satanás, esforçam-se para minar, por meio de calúnias indiretas, a infalibilidade da Escritura. Paulo sabia que Moisés não estava ministrando a rapazes lições de gramática, e sim falando sobre a decisão pronunciada por Deus. Paulo entende mui adequadamente o termo justiça em seu sentido teológico. Pois não é no sentido de bondade aprovada entre os homens que somos justos aos olhos de Deus, mas somente onde prestamos obediência perfeita à lei.

À Justiça é contrastada com a transgressão da lei, mesmo em seus menores mandamentos. E, visto que não temos nada em nós mesmo. Seus no-la outorga gratuitamente. Aqui, porém, os judeus objetavam que Paulo torcia as palavras de Moisés para adequá-las ao seu propósito pessoal; porquanto Moisés não estava falando de Cristo ou da vida eterna, mas apenas de uma promessa terrena. Os papistas não diferem muito dos judeus, pois, ainda que não ousem atacar a pessoa de Paulo, destroem totalmente o significado de suas palavras. Respondo que Paulo toma por inquestionável o que constitui um axioma para os crentes: quaisquer promessas que o Senhor fez a Abraão eram complementos da primeira promessa: “Eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo grande” (Gn 15:1). Quando Abrão ouviu a promessa: “Multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia da praia no mar” (Gn 22:17), ele não limitou a sua visão a essa palavra, mas a incluiu na graça da adoção, como parte de um todo. E, de modo semelhante, todas as outras promessas foram vistas por ele como um testemunho da bondade paternal de Deus, que fortaleceu sua esperança de salvação. Os incrédulos diferem dos filhos de Deus neste aspecto: enquanto também desfrutam dos benefícios divinos, devoram tais benefícios como animais e não olham para o alto. Os filhos de Deus, por outro lado, conscientes e que todos os seus benefícios são santificados pelas promessas, vêem nos benefícios a providência de Deus como Pai deles. A sua atenção é sempre dirigida à esperança de vida eterna, pois começam do fundamento, ou seja, a fé em sua adoção. Abraão foi justificado não meramente porque creu que Deus multiplicaria sua descendência (Gn 22:17), mas porque recebeu a graça de Deus, confiando no Mediador prometido, em quem, como Paulo declara em outra epístola: “Quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus” (2 Co 1:20).

Fonte: Série Comentários Bíblicos – Gálatas, João Calvino, Editora Fiel, 2010, Pg. 76-79.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O Álcool e a questão do escândalo


E, por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandaliza-lo.” (1 Coríntios 8.13)
No capítulo 14 da epístola aos Romanos, e na Primeira epístola aos Coríntios no capítulo 8 e dos versos 14 a 33 do capítulo 10, Paulo fala da preocupação que devemos ter em agir de tal modo que não leve nosso irmão a se escandalizar.
Quando se trata da questão do consumo do álcool, esse é o ponto que costuma gerar mais discussões. Está claro na Bíblia, ao contrário do que muitos crentes pensam, que o Senhor “Do alto de tua morada, regas os montes; a terra farta-se do fruto de tuas obras. Fazes crescer a relva para os animais, e as plantas para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão, o vinho que alegra o coração do homem” (Salmo 104.14-15). Além disso, Cristo transformou a água em vinho (ver João 2.1-14). Portanto antes de considerarmos a questão do escândalo, a Bíblia de modo algum proíbe o consumo de bebidas alcoólicas. Todavia, também é igualmente claro que o consumo exagerado é pecado “Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias.” (1 Pedro 4.3). "E não vos embriagueis com vinho" (Efésios 5.8)."Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices" (Romanos 13.13).  
Agora o ponto que gostaria de discutir é esse, quando beber moderadamente é pecado, quando deve-se levar em conta a questão do escândalo? Primeiro há aqueles que com base na ideia do escândalo creem que o cristão nunca deve beber na frente de outras pessoas, e de preferência deve-se abster totalmente do álcool. Outros em compensação, considerando que o débil está errado em não compreender que eu posso beber e que eu não devo ser escravo da opinião dele e deixa-lo na ignorância, consideram que sempre posso beber moderadamente. Será que alguns desses pontos estão corretos?
Confesso que eu sou mais tendente à primeira posição, mas aqueles que defendem que sempre é correto consumir bebidas alcoólicas moderadamente estão certos em dizer que o débil está errado e que não devo deixar de beber moderadamente deixando sempre aquele que é mais ignorante nessa ignorância, mesmo porque também devo buscar o crescimento no conhecimento do meu irmão, não posso fazer ele pensar que beber moderadamente é pecado quando na verdade não é. Mas igualmente não podemos descartar o que Paulo diz, existe sim o contexto onde minha atitude pode escandalizar o meu irmão, e com certeza o consumo de álcool se adequa nesse contexto muitas vezes, essa é a mesma atitude de alguns da igreja de corinto que provavelmente se orgulhavam no seu conhecimento e prejudicavam os seus irmãos. “E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais” (1 Coríntios 8.12). Apesar de como já falei anteriormente ter ser mais tendente por assim dizer ao primeiro posicionamento, ambas as atitudes biblicamente falando estão erradas.
Porém considerando tudo isso, como saber quando devo beber ou não beber (moderadamente é claro, em excesso é sempre errado!). Creio que dois versículos localizados bem no contexto onde Paulo fala sobre a questão de cuidado para não levar nosso irmão ao escândalo nos respondem essa questão. “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos para o Senhor morremos. Quer pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Romanos 14.8). “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a Glória de Deus” (1 Coríntios 10.31).
Percebam, que posso tanto beber quanto deixar de beber para minha glória. Se você der uma olhada no capítulo 8 de 1 Coríntios, verá que os Coríntios por achar que sabiam muito, não se preocupavam se a atitude deles levasse o irmão a perecer, eles de certo modo demonstravam que poderiam comer comida sacrificada a ídolo sem se preocupar porque tinham conhecimento que isso não era errado. “Eu como porque sei que nada há de errado com isso”. Não é atoa que nesse sentido Paulo fala que o “saber ensoberbece”. Há muitos que para demonstrarem seu conhecimento de que nada há de errado em beber, ainda que saibam que há irmãos imaturos que podem não reagir bem a essa atitude, bebem sem se preocupar. Mas como o foco deles é demonstrar o “conhecimento deles” ou em outros casos como eles são legais, modernos, contextualizados, etc., eles acabam não se importando com o irmão que pode se escandalizar, vejamos que essa é uma atitude que além de egocêntrica é soberba, não há louvor a Deus em uma atitude dessa natureza, o homem que age assim busca louvor para si mesmo.
Todavia, é possível não beber para sua própria glória, se eu faço isso para demonstrar uma “espiritualidade superior” certamente faço isso para minha glória apenas. Lembram-se do fariseu que jejuava 2 vezes por semana (veja Lucas 18.9-14), não havia mandamento nesse sentido na Bíblia (não nessa frequência!), porém ele usava isso para se demonstrar como espiritual e buscar a glória dos homens. Não é possível ir além da lei de Deus, não se pode ir além do que é perfeito, os fariseus criavam mandamentos estranhos a Bíblia enquanto descumpriam vários outros. Podemos agir como os fariseus usando algo que não está na lei para tentar demonstrar como somos espirituais, certamente é mais fácil não beber do que deixar de mentir ou de cobiçar, portanto quando o “não beber” é focado em nós é pecado do mesmo modo.
Por isso, para responder adequadamente essa questão “Quando devo consumir bebidas alcóolicas?”, a resposta mais adequada seria “quando só Deus será glorificado com isso”[1]. Se você for beber em um momento onde pode desfrutar da comunhão e daquilo que Deus criou sem levar teus irmãos a prejuízo então beba, se você for deixar de beber em certa ocasião não porque isso te faça “mais crente”, mas porque você crê que há pessoas que podem compreender errado isso e serem levadas ao engano, então não beba. “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31) “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14.17).
Autor: Ivan Junior


[1] Compreendo que há pessoas que justificam quase tudo que fazem dizendo que fazem isso para a Glória de Deus, porém você só agirá para a Glória de Deus, se agir de acordo com a Lei d'Ele e se levar as pessoas a olharem para Ele e não para você.

O Dízimo é uma obrigação do cristão?


Antes de escrever sobre esse assunto, quero deixar claro que creio que há verdadeiros cristãos que amam a Bíblia, que são contrários ao dízimo. Não creio que todos que sejam contrários à prática o façam por não quererem dar dinheiro a igreja, alguns podem ser até mesmo mais generosos do que aqueles que são defensores do dízimo. Lógico que existem questões fundamentais, que aqueles que as negam não poderiam de modo algum ser considerados cristãos, não creio que o dízimo esteja entre essas questões fundamentais, porém vou tentar demonstrar aqui que quem se posiciona contrariamente ao dízimo está errado.
Para alguns, pode parecer estranho que haja cristãos que dizem que a prática do dízimo está errada, mas não podemos ignorar que o argumento deles tenha algum peso. De modo geral, aqueles que são contra a prática do dízimo o são, pois consideram que, na Nova Aliança, após a morte e ressureição de Cristo não há mandamento que diga que os cristãos devem pagar o dízimo e somente que eles devem pagar ofertas e, portanto os cristãos não estão mais sobre a obrigação de pagar os dízimos.
De modo geral, para se chegar a essa conclusão deve-se ter o seguinte pressuposto em mente, eu só tenho obrigação de cumprir algo se estiver confirmado no novo mandamento. Será que Cristo revogou a lei? Não foi isso que Ele disse no sermão em que demonstrou a correta interpretação dela “Não penses que vim revogar a lei ou os Profetas, não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra.”(Mateus 5.17-18). Devemos compreender a divisão que os teólogos fazem em relação a lei.
Lei cerimonial: Relacionados aos sacrifícios e a separação do povo de Israel dos demais povos, foi cumprida em Cristo e estamos livres delas, eram sombras que apontavam para a Cristo. (Você pode compreender melhor isso estudando a epístola aos Hebreus).
Lei Cívil: Lei do estado teocrático de Israel, não somos mais cidadãos do estado de Israel, essa lei pode ser usada como modelo para o desenvolvimento de um governo civil, mas é para ser aplicado por governos e não pela igreja, apenas ao estado (Rm 13.1-6) foi dado o poder da espada (de aplicar a pena capital, ou seja pena de morte) e não a igreja.
Lei Moral: Estamos sobre obrigação de seguir essa lei, fomos salvos para andar segundo ela (Ef 2.10, Ti 2.14, Jo 14.15, 1 Jo 2.3-4, 1 Jo 5.2-3).
É importante compreendermos que a lei moral não é só aquilo que está prescrito no Novo testamento. Por exemplo, você acha imoral fazer sexo com um animal? E casar com sua irmã, irmão, tio, ou tia? O novo testamento não proíbe esse tipo de coisa, apenas o antigo testamento, se pensarmos que apenas o que está no novo vale para nós, não podemos considerar imoral nenhuma dessas coisas.
Portanto, a menos que o dízimo seja considerado como lei cerimonial ou civil ou que esteja implícito no novo testamento que não devemos dar o dízimo não poderíamos considerar que ele não seja mais obrigatório.
Podemos afirmar de maneira clara que ele não faz parte da lei civil, já que ele já era dado antes de Moisés. Vemos que Abraão pagou o dízimo a Melquisedeque (Gn 14.18-20).
Porém poderia o dízimo ser considerado uma lei cerimonial? O dízimo sustentava os sacerdotes, que estavam ligados ao templo, poderíamos por isso dizer que o dízimo não é mais obrigatório? Se considerarmos o mesmo exemplo anterior, podemos dizer que antes de existir o sacerdócio levítico já existia o dízimo. É correto que também existia a circuncisão e os sacrifícios, mas essas coisas foram claramente modificadas, a circuncisão pelo batismo e os sacrifícios apontavam claramente para Cristo. Não podemos dizer o mesmo sobre os dízimos, não há nenhuma advertência no Novo Testamento de que seria errado os cristãos fazerem isso.
Além disso, há algo que Paulo fala muito útil para dizermos que o dízimo ainda é válido, lembre que ele falou isso sobre a Nova Aliança:
Não sabeis vós que os que prestam serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tira sustento” (1 Coríntios 9.13)
Apesar de alguns cristãos invalidarem o Antigo Testamento, não é essa a atitude Paulo para com o Antigo Testamento, como não foi a atitude de Cristo e nem de nenhum dos apóstolos. Além disso, Paulo está defendendo o direito daquele que prega viver apenas de pregar o evangelho. Se ele tem o direito de viver de pregar o evangelho, donde ele tirará o sustento? Os que serviam no templo eram sustentados pelos dízimos, será que considerando o exemplo de Paulo não deve ser essa a forma de sustento de quem vive do evangelho?
Além disso Paulo ensina cada um a contribuir segundo tiver proposto no coração (2 Cor 9.7) e segundo nossas posses (2 Cor 8.11), tendo que estipular um valor você prefere confiar em sua própria sabedoria ou naquilo que o próprio Deus estabeleceu?
Por último, acho importante lembrarmos de uma advertência de Cristo:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt 23.23)
Cristo não diz que dar o dízimo era errado, mas apenas que isso não é a coisa mais importante. Devemos fazer isso sem esquecer as coisas mais importantes.
Uma defesa bem mais elaborada poderia ser formulada, mas acho que esses princípios aqui são importantes para entendermos que o dízimo ainda é uma obrigação do cristão. Quando fazemos isso declaramos que tudo pertence ao Senhor, apenas devolvemos a Ele uma parte. Além disso, dez por cento deveria ser o mínimo a ser considerado, se não damos nem isso para sustentar a obra d’Ele será que poderíamos considerar que temos dado prioridade ao seu Reino (Mt 6.33). Se você acha que não é correto dar os dízimos somente pense sobre isso.
PS: Após ter escrito esse post encontrei esse texto que indico no link abaixo do Pb. Solano Portela, com bons argumentos em defesa do dízimo. Não modifiquei meu texto depois de ter lido esse, apenas acrescentei uma referência bíblica a mais.

Além do link acima acho importante ver o que o Pb. Solano Portela escreveu em um comentário no blog, no qual ele é um dos escritores, segue abaixo.
Resumindo minha posição sobre o dízimo:   
1. A contribuição proporcional antecede a lei civil e judicial de Israel. Aparentemente, pelos registros bíblicos, o costume era uma prática do povo de Deus e das pessoas tementes a Deus na época dos patriarcas.     
2. Logicamente, a prática foi incorporada na legislação de Israel. Junto com seu caráter mandatório, foram estipuladas outras contribuições e taxas. O entrelaçamento, da época, entre o governo civil e as autoridades religiosas (normal, pois era uma teocracia) faz com que essas taxas fossem também os impostos para a manutenção do governo, mas não excluiu os aspectos sacramentais, simbólicos e religiosos - de reconhecimento de Deus como o dono de tudo e de todos e nós como mordomos seus.           
3. Quem fizer defesa de dízimo baseado na legislação mosaica, o faz equivocadamente e, por coerência, deveria advocar o apedrejamento de quebradores do dia de descanso, bem como as leis dietéticas. Até a utilização da expressão "trazei todos os dízimos à casa do tesouro" aplicada anacronicamente aos nossos dias, é questionável e não reflete uma boa hermenêutica - a não ser para o explorar o princípio que estava por trás disto.     
4. Por outro lado, considerando que a prática da contribuição proporcional não foi iniciada nesse período, há de se questionar se o seu abandono é algo a ser defendido, propagado, pregado. Ou seja - será que isso contribui para o bom andamento da Igreja?
5. Indo ao Novo Testamento, não vemos revogação do princípio da contribuição proporcional, nem pregação contra ele, nem indicação de que ele se constituiria em uma forma legalista de adoração. Pelo contrário, em algumas situações (coloco essas questões mais extensivamente no meu artigo) Paulo utiliza a linguagem de prática de contribuição proporcional, como sendo uma forma a ser seguida pelos fiéis.
6. Além disso, no próprio Novo Testamento, o autor de Hebreus, quando faz referência ao incidente de Abraão, para ressaltar a ascendência de Melquisedeque sobre a Lei Ceirmonial do AT, demonstrando a permanência do sacerdócio de Cristo, faz menção à dádiva do dízimo. Por que essa referência? Se o dízimo é algo que não é importante; que deve, na realidade, ser abolido; que pertence apenas "à época da lei", por que ressaltar a dádiva, apenas confundindo seus leitores? Ou será que era, realmente, importante mencionar coo algo que está acima da lei cerimonial?
7. Ainda no NT, Jesus não prega contra o dízimo e, na realidade, reforça ele, dirigindo-se aos Fariseus.           
8. A prática de ofertas voluntárias não poderia ser, na minha opinião, a contrapartida neo-testamentária ao dízimo, pois elas já existiam, igualmente, no antigo testamento (desenvolvo, também, com maior substanciação, esse ponto - de ofertas no Antigo Testamento, em meu artigo). No meu entendimento, as ofertas são algo acima e que transcendem uma sistematização no dar.    
9. Se considerarmos etimologicamente a designação da contribuição proporcional (dízimo), vamos cair nos dez por cento. Será possível estabelecermos outro padrão? Cinco por cento? Dois por cento? Trinta por cento (como ouvi um pregador, certa vez, dizer que era assim que ele fazia e quase procurar impingir isso como ideal)? Talvez, mas isso não terá uniformidade ou aceitação abrangente e terminaríamos em um individualismo subjetivo. Como poderia ser proporcional, se os percentuais variassem de comunidade para comunidade, ou até dentro da mesma comunidade? Temos, realmente, que "inventar" algo novo?           
10. Posso até concordar que essa questão, por não ser determinação neo-testamentária explícita, talvez não devesse ser alvo de legislação denominacional ou eclesiástica, ficando no foro íntimo. Mas me parece que a idéia da contribuição proporcional:    
a. É Bíblica.    
b. Auxilia o homem, indisciplinado por natureza, a se organizar a sistematizar a sua contribuição.       
c. Faz com que as comunidades (vejam, estou sucumbindo à terminologia contemporânea) e igrejas locais reflitam o poder aquisitivo dos congregados e tenham condições de planejar e projetar suas ações e ministérios.
d. A contribuição sistemática alegra a Deus e não impede que contribuamos com alegria (será que todo o povo de Deus no AT, onde não há dúvida que o dízimo era requerido, contribuía por constrangimento, sem alegria? De onde tiramos essa noção, de que sistematização significa escravidão?);e. Assim, mesmo sem se constituir ponto de julgamento de um sobre o outro, ou da igreja sobre o um, deveria ser pregada e propagada dos púlpitos, como um estudo bíblico válido e aplicável.
Autor: Ivan Junior

Eu não penso assim Doug


Doug Wilson, em uma postagem recente intitulada, “Paul on divorce and remarriage”(NT: Paulo em divórcio e novo casamento), diz que 1 Coríntios 7.28 permite um homem divorciado casar novamente. Eu não acho que seja isso o que Paulo esteja dizendo.
1 Coríntios 7.27-28 diz “Você está ligado a esposa (ou literalmente “mulher” como no noivado)? Não procure ser livre. Esta livre de uma esposa (ou mulher)?Não procure uma esposa (ou mulher). Mas se você casar, você não pecou, e se a mulher desposada casa, ela não pecou” (NT: Nesse caso fiz uma tradução da versão usada pelo autor, as partes em parênteses são citações dele)
A questão é se “livre de uma esposa” no verso 27 significa divorciado ou se ele significa não casado. Se isso significa “divorciado de uma mulher”, então ele está dizendo “Se uma pessoa divorciada casa novamente, ela não peca”.
O melhor argumento em favor da leitura do verso 27 é que por trás do termo em inglês “free from a woman” (NT: Livre de uma mulher) esta o grego lelusai o qual é voz passiva de luo (“desligar”) de modo que lelusai soa como  “desligado de uma mulher” que é “divorciado”.
Eu acho que é improvável que Paulo esteja dizendo que aos divorciados é permitido casar novamente. Preferencialmente, ele esta dizendo que noivos virgens – homens e mulheres – deveriam considerar seriamente a vida de solteiro, mas não pecam se eles casarem.
Aqui estão os argumentos para essa visão:
1.   Verso 25 sinaliza que Paulo está iniciando uma nova sessão e lidando com uma nova questão. “Quanto às pessoas virgens, não tenho mandamento do Senhor, mas dou meu parecer como alguém que, pela misericórdia de Deus, é digno de confiança.
1 Coríntios 7:25” (NVI). Ele já lidou com o problema de pessoas divorciadas nos versos 10-16. Agora ele assume uma nova questão sobre aqueles que ainda não são casados, e ele sinaliza isso dizendo “Quanto as pessoas virgens”(NVI). Portanto é muito improvável que as pessoas referidas no verso 27-28 sejam divorciadas.
2.   Uma afirmação de que não é pecado pessoas divorciadas se casarem novamente (verso 28) iria contradizer o verso 11, onde ele diz que uma mulher separada do seu marido deve permanecer solteira “que a esposa não se separe do seu marido.        
Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher.
1 Coríntios 7:10-11”(NVI)
3.   O verso 36 muito provavelmente descreve a mesma situação em vista nos versos 27 e 28, porém claramente se refere a um casal que ainda não está casado. “Se alguém acha que não está tratando adequadamente sua noiva (parthenon), se sua paixão é forte, se tem que ser, deixa ele fazer como deseja: deixe eles casarem – não é pecado” (NT: nesse caso mas uma vez optei por uma tradução direta da versão do autor). Isso é o mesmo que o verso 28 onde Paulo diz “ Mas se você casar, não peca”.
4.   A referência em inglês no verso 27  “being bound to a ‘wife’” (NT ”estar ligado a uma esposa” não vemos o termo “ligado a esposa” nas versões mais comumente usadas em português) pode ser mal interpretado por sugerir que o homem já está casado. Mas no grego a palavra esposa é simplesmente “mulher” e pode se referir tanto a uma mulher desposada a um homem quanto à esposa dele. Portanto “estar ligado” e “estar desligado” tem referencia a uma pessoa estar ou não desposada.
5.    É significante que o verbo que Paulo usa para “desligado” (lelusai vem de luo) ou “livre” não é uma palavra que ele usa para divórcio. A palavra de Paulo para divórcio é chorizo (versos 10, 11 e 15 e veja Mateus 19.6) e aphienai (versos 11, 12 e 13). De fato luo não é usado para divórcio em nenhum lugar do novo testamento.
Original: aqui
Autor: John Piper
Tradução livre: Ivan Carlos Parecy Junior 

Breve catecismo sobre o casamento



1. Quem instituiu o casamento?
O próprio Deus instituiu o casamento. De um homem, Deus faz homem e mulher, para no casamento os dois voltarem a ser um(a).
(a)Gênesis 2.21-24; Mateus 19.4-6, Efésios 5.31.
2. Com quem o cristão pode se casar?
Ao cristão é lícito se casar somente no Senhor(a). O cristão não deve se casar com incrédulos (b) ou com aqueles que se dizem cristãos e vivam uma vida ímpia (c). O cristão também não deve se casar com pessoas entre as quais existe grau de consanguinidade ou afinidade proibidos na Palavra de Deus (d).
(a) 1 Coríntios 7.39.
(b) 2 Coríntios 6.14; Malaquias 2.11-12; Neemias 13.23-29.
(c) 1 Coríntios 5.11.
(d) Levítico 18.1-18; 1 Coríntios 5.1; Marcos 6.18.
3. Pode o cristão se casar com mais de uma pessoa? A Bíblia permite a poligamia?
Não. Deus faz homem e mulher, para no casamento os dois voltarem a ser um(a). Cada mulher deve ter seu próprio marido e cada marido deve ter sua própria mulher (b).
(a) Gênesis 2.21-24; Mateus 19.4-6; Efésios 5.31.
(b) 1 Coríntios 7.2; 1 Timóteo 3.2; Tito 1.6.
4. A Bíblia permite casamento entre pessoas do mesmo sexo?
Não. No princípio Deus criou homem e mulher (a). Homossexualismo é abominação perante o Senhor (b).
(a) Gênesis 2.21-24; Mateus 19.4-6; Efésios 5.31.
(b) Levítico 18.22; Romanos 1.26-27; 1 Coríntios 6.9; Judas 7.
5. Todo cristão deve-se casar?
Não. Há alguns foi dado o dom de permanecerem solteiros (a), mas isso não é uma obrigação imposta sobre aquele que quiser ser presbítero (b).
(a) 1 Coríntios 7.7; Mateus 19.11-12.
(b) 1 Timóteo 3.2; Tito 1.6; 1 Timóteo 4.3.
6. Ao Cristão é lícito se divorciar?
Não. O que Deus ajuntou não o separe o homem (a), Deus abomina o divórcio (b) e o proíbe (c).
(a) Mateus 19.6; Marcos 10.9.
(b) Malaquias 2.16.
(c) Mateus 5.32; Mateus 19.9; Marcos 10.11-12; Lucas 16.18; 1 Coríntios 7.10-11.
7. Em nenhum caso ao cristão é permitido o divórcio?
O divórcio é permitido em caso de adultério (a), e caso o cônjuge descrente se aparte o cristão não é obrigado a forçar o descrente a manter um relacionamento (b).
(a) Mateus 19.9; Mateus 5.32;
(b) 1 Coríntios 7.15.
8. Ao cristão divorciado é permitido casar de novo?
Apenas a morte do cônjuge deixa livre o cristão para se casar novamente[1] (a), ao divorciado só restam duas opções permanecer como está, ou voltar ao cônjuge inicial (b).
(a) Romanos 7.2-3; 1 Coríntios 7.39.
(b) 1 Coríntios 7.11.
9. Me casei novamente, e meu cônjuge ainda está vivo, devo voltar ao primeiro casamento?
Não, deve permanecer como está[2] (a). Você deve se arrepender e pedir perdão pelo seu erro para voltar a comunhão normal da igreja (b).
(a) Deuteronômio 24.1-4.
(b) 2 Coríntios 2.5-11.
10. Qual obrigação da mulher em relação ao homem no casamento?
A mulher deve ser submissa ao marido (a), como a igreja é submissa a Cristo (b).
(a) Efésios 5.22-24; 1 Pedro 3.1; Colossenses 3.18.
(b) Efésios 5.24.
11. Qual obrigação do homem em relação à mulher no casamento?
O homem deve tratar a mulher como parte mais frágil (a), amá-la (b), assim como Cristo amou a igreja e deu Sua vida por ela (c).
(a) 1 Pedro 3.7.
(b) Efésios 5.25-28; Colossenses 3.19, Efésios 5.33.
(c) Efésios 5.25.
12. Qual é maravilhosa relação representada pelo casamento?
A maravilhosa relação entre Cristo e sua Igreja (a).
(a) Efésios 5.22-32.




[1] Aqui, minha posição diverge da maioria dos teólogos reformados, e até mesmo da confissão de Fé de westminter, esses creem que o cristão abandonado pelo descrente ou traído considera a outra parte como morta e pode-se casar novamente. Os textos que poderiam permitir essa interpretação são Mateus 19.9, Mateus 5.32 e 1 Coríntios 7.15, porém parece claro que Cristo considera essa clausula de exceção em relação ao divórcio e não ao novo casamento, e concluir esse tipo de coisa faria com que os ensinos de Paulo e Cristo fossem divergentes. Para uma defesa magistral da total proibição do novo casamento quando o cônjuge ainda esta vivo veja: <http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/divorcio_novo_casamento_piper.htm><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/proib-recasamento_Miersma.pdf><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/novo-casamento-mateus19_stewart.pdf><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/desercao_stewart.pdf><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/proibicao-divorcio_engelsma.pdf><http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/divorcio_sermao_monte_cheung.pdf>
[2] Não há um texto bíblico que lide claramente com essa questão, mas o contexto de Deuteronômio 24 é de uma situação onde estava ocorrendo o divórcio e nesse caso voltar ao primeiro cônjuge era considerado abominação. Possivelmente esse texto é o mais útil em orientar nesses casos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Biografia George Whitefield – J. C. Ryle (Final)



Ele era um homem de ardente amor por nosso Senhor Jesus Cristo. Este nome que está ‘acima de todo nome' destaca-se incessantemente em toda a sua correspondência. Como um ungüento perfumado, ele dá um aroma a todas as suas cartas. Ele parece nunca cansar de dizer alguma coisa a respeito de Jesus. ‘Meu Mestre' como George Herbert dizia, nunca fica fora de sua mente. Seu amor, Sua expiação, Seu sangue precioso, Sua justiça, Sua prontidão em receber pecadores, Sua paciência e maneira meiga de lidar com os santos, são temas que aparecem sempre frescos diante de seus olhos. Pelo menos neste aspecto, há uma curiosa semelhança entre ele e aquele glorioso teólogo escocês, Samuel Rutherford.
Ele era um homem de incansável diligência e labor no que diz respeito nos negócios de seu Mestre. Seria difícil talvez, encontrar alguém nos anais da Igreja que trabalhou tão duro por Cristo e se gastou tão plenamente em seu serviço. Henry Venn, no sermão fúnebre em sua lembrança, pregado em Bath, deu o seguinte testemunho, ‘Que sinal e prodígio foi este homem de Deus, no que diz respeito à imensidão dos seus labores! Alguém não pode senão ficar espantado que a sua estrutura mortal pudesse, pelo espaço de quase trinta anos, sem interrupção, sustentar o peso deles; pois o que é mais fatigante á estrutura humana, especialmente na juventude, do que um esforço longo, contínuo, freqüente e violento dos pulmões? Quem que conheça sua estrutura pensaria ser possível que uma pessoa pouco acima da idade adulta, pudesse falar em uma simples semana, e isto durante anos - em geral quarenta horas, e em muitas semanas, sessenta - e isto para milhares de pessoas; e após seus labores, ao invés de descansar, poderia elevar orações e intercessões, com hinos e cânticos espirituais, como costumava fazer, em cada casa à qual era convidado? A verdade é que, no que diz respeito ao labor, este extraordinário servo de Deus fez em algumas semanas tanto quanto a maioria daqueles que, embora se esforçando, consegue fazer no espaço de um ano.
Ele foi até o fim, um homem de eminente auto-negação. Seu estilo de vida era o mais simples. Ele foi notadamente um exemplo típico de moderação no comer e beber. Durante toda a sua vida, ele acordava muito cedo. Sua hora habitual de levantar-se era às quatro horas, tanto no verão como no inverno; e era igualmente pontual na hora de recolher-se, cerca de dez horas da noite. Um homem de oração, ele freqüentemente gastava noites inteiras em leitura e devoção. Cornelius Winter, que freqüentemente dormia no mesmo quarto, diz que ele às vezes levantava durante a noite com este propósito. Ele ligava muito pouco para dinheiro, exceto como uma ajuda para a causa de Cristo, e o recusava, quando lhe era oferecido para seu próprio uso. Uma vez recusou a importância de sete mil libras. Ele não acumulou fortuna nem estabeleceu uma próspera família. O pouco dinheiro que ele deixou ao morrer provinha inteiramente de doações de amigos. O comentário vulgar que o Papa fez a respeito de Lutero, ‘este animal alemão não ama o ouro', poderia bem ter sido aplicado a Whitefield.
Ele era um homem de notável desinteresse e simplicidade. Ele parecia viver apenas para dois objetivos: a glória de Deus e a salvação de almas. Ele não tinha objetivos secundários ocultos. Ele não levantou nenhum grupo de seguidores que tomassem seu nome. Ele não estabeleceu nenhum sistema denominacional que adotasse seus próprios escritos como elementos cardinais. Uma expressão sua é bem característica do homem: ‘Que o nome de George Whitefield pereça contanto que Cristo seja exaltado'.
Ele era um homem de um espírito singularmente feliz e alegre. Ninguém que o visse poderia jamais duvidar que ele se deleitava na sua religião. Perseguido que foi de muitas maneiras por todo o seu ministério - caluniado por alguns, desprezado por outros, deturpado por falsos irmãos, sofrendo oposição em todo lugar pelo clero ignorante do seu tempo, preocupado por incessante controvérsia - sua flexibilidade nunca falhou. Ele era um cristão eminentemente alegre, cuja própria conduta recomendava a obra de seu Mestre. Uma venerável senhora de New York, após sua morte, ao falar das influências através das quais o Espírito ganhou seu coração para Deus, usou estas notáveis palavras: ‘O Senhor Whitefield era tão feliz que isso me provocou a tornar-me uma cristã.'
Finalmente, mas não menos importante, ele era um homem de extraordinária caridade, catolicidade e liberalidade na sua religião. Ele nada conhecia daquele sentimento tacanho que faz com que alguns homens imaginem que tudo tem que ser estéril, fora de seus próprios campos, e que sua própria denominação tem um completo monopólio da verdade e do Céu. Ele amava todos os que amavam o Senhor Jesus com sinceridade. Ele media a todos com a medida que os anjos usam, ‘professam eles arrependimento para com Deus, fé no nosso Senhor Jesus Cristo e santidade de vida?' Se sim, eles eram seus irmãos. Sua alma ligava-se com estes homens, qualquer que fosse o nome com que fossem chamados. Diferenças menores eram madeira, palha e restolho para ele. As marcas do Senhor Jesus eram as únicas marcas que lhe interessavam. Essa catolicidade era mais notável quando o espírito dos tempos em que viveu é considerado. Até mesmo os Erskines, na Escócia, queriam que ele não pregasse em nenhuma outra denominação que não a deles - isto é, a Igreja da Cessessão. Ele perguntou: ‘Por que somente para eles?' - E recebeu a incrível resposta que ‘eles eram o povo do Senhor.' Isto foi mais do que Whitefield podia suportar. Ele disse: ‘Se não há nenhum outro povo de Deus senão eles, se todos os outros são povo do diabo, eles certamente têm mais necessidade de pregação;' E ele finalizou informando-os de que ‘se o próprio Papa lhe cedesse seu púlpito, ele proclamaria alegremente nele a justiça de Cristo.' A esta catolicidade de espírito ele aderiu todos os seus dias. Se outros cristãos o deturpassem, ele os perdoava, e se recusassem trabalhar com ele, ainda assim ele os amava. Nada pode ser um testemunho mais valioso contra a intolerância do que o seu pedido, feito pouco antes da sua morte que, quando morresse, John Wesley fosse convidado para pregar no seu enterro. Wesley e ele há muito não concordavam sobre pontos calvinistas; mas Whitefield, até o fim, estava determinado a esquecer as diferenças superficiais, e a considerar Wesley como Calvino considerou Lutero: ‘Simplesmente um bom servo de Jesus Cristo.' Em outra ocasião um severo professor de religião lhe perguntou ‘se ele pensava que veria John Wesley no céu?' ‘Não, senhor,' foi a sua extraordinária resposta; ‘eu temo que não. Ele estará tão próximo do trono, e nós tão distantes, que dificilmente o veremos'.
Longe de mim dizer que o assunto deste capítulo foi um homem sem faltas. Como todos os santos de Deus, ele foi uma criatura imperfeita. Ele às vezes errava nos seus julgamentos. Ele freqüentemente tirava conclusões precipitadas sobre a providência divina, e se enganava, tomando as suas próprias inclinações como sendo direção de Deus. Ele era freqüentemente apressado, tanto com sua língua como com sua pena. Ele não hesitava em dizer que o ‘Arcebispo Tillotson não sabia mais do Evangelho do que Maomé.' Ele errava em distinguir algumas pessoas como inimigas do Senhor e outras como amigas do Senhor tão precipitada e positivamente como às vezes fazia. Era censurável sua atitude de denunciar muitos ministros como ‘fariseus,' porque não aceitavam a doutrina do novo nascimento. Mas ainda assim, apesar de tudo que foi dito, não pode haver dúvida de que, no geral, ele era um homem eminentemente santo, que se auto-negava, e consistente. ‘As faltas do seu caráter,' diz um escritor americano - ‘eram como pontos no sol, detectadas sem muita dificuldade por qualquer observador moderado e cuidadoso que se esforce em procurá-las, mas, para todo propósito prático, são pontos perdidos numa efulgência geral e afável'. Quão bom seria para as igrejas dos nossos dias, se Deus lhes desse mais ministros como o grande evangelista da Inglaterra de cem anos atrás!
Apenas nos resta dizer que aqueles que desejarem conhecer mais a respeito de Whitefield fariam bem em ler com atenção os sete volumes de suas cartas e outras publicações, que o Dr. Gillies editou em 1770. Eu estaria muito enganado se quem fizer isso não for agradavelmente surpreendido com o seu conteúdo. E motivo de espanto para mim que, dentre tantas reimpressões no século dezenove, nenhum publicador tenha tentado reimprimir totalmente as obras de George Whitefield.
Um pequeno trecho da conclusão de um sermão pregado por Whitefield em Kennington Common, pode ser interessante para alguns leitores, e pode servir para dar-lhes uma pálida idéia do estilo do grande pregador. Foi um sermão baseado no texto, ‘Que pensais vós do Cristo?' (Mt. 22:42).
‘Ó meus irmãos, meu coração está dilatado para vocês. Eu confio que sinto alguma coisa daquela escondida mas poderosa presença de Cristo enquanto estou pregando a vocês. Sim, ela é doce - ela é extraordinariamente reconfortante. Todo o mal que eu desejo a vocês que sem razão são meus inimigos, é que sintam o que estou sentindo. Acreditem-me, embora fosse um inferno para minha alma retornar ao estado natural novamente, ainda assim, eu desejaria trocar de estado com vocês por um tempo, a fim de que vocês pudessem conhecer o que é ter Cristo habitando em seus corações pela fé. Não voltem suas costas. Não deixem que o diabo os faça sair correndo. Não temam a convicção de pecados. Não pensem mal das doutrinas porque pregadas fora das paredes da igreja. Nosso Senhor, nos dias de Sua carne, pregou em um monte, em um barco, em um campo, e eu estou persuadido que muitos têm sentido aqui a Sua graciosa presença. A verdade é que nós falamos do que conhecemos. Portanto, não rejeitem o reino de Deus, para o mal de si próprios. Sejam sábios e recebam o nosso testemunho.
‘Eu não posso, e não permitirei que partam. Permaneçam um pouco, e ponderemos juntos. Por mais levianamente que vocês estimem suas almas, eu sei que o nosso Senhor coloca nelas um valor indizível. Ele as considerou dignas de Seu preciosíssimo sangue. Eu rogo a vocês, portanto, ó pecadores, que se reconciliem com Deus. Eu espero que vocês não temam ser aceitos no Amado. Eis que Ele chama vocês. Eis, Ele toma a dianteira e segue vocês com sua misericórdia, e enviou Seus servos às ruas e becos para compeli-los a entrar.
‘Lembrem-se, portanto, que nesta hora deste dia, neste ano, neste lugar, foi dito a todos o que deveriam pensar a respeito de Jesus Cristo. Se vocês perecerem agora, não será por falta de conhecimento. Eu estou livre do sangue de todos vocês. Vocês não podem dizer que eu tenho pregado condenação. Não podem dizer que eu tenho, como os pregadores legalistas, requerido que vocês façam tijolos sem palha. Eu não tenho ordenado que vocês se façam a si mesmos santos e então venham a Deus. Eu tenho oferecido a salvação a vocês nos termos mais fáceis que possam desejar. Eu tenho oferecido toda a sabedoria de Cristo, toda a justiça de Cristo, toda a santificação e eterna redenção de Cristo, se vocês apenas crerem nEle. Se você disser que não pode crer, diz certo; pois a fé, assim como todas as outras bênçãos, é dom de Deus. Mas então espere em Deus, e quem sabe se Ele não terá misericórdia de você' .
‘Por que não nutrimos mais pensamentos amorosos a respeito de Cristo? Você pensa que Ele terá misericórdia de outros e não de você? Você não é pecador? Cristo não veio a este mundo para salvar os pecadores?'
‘Se você disser que é o maior dos pecadores, eu replico que isso não será impedimento para a sua salvação. De fato não será, se você, pela fé se apegar a Cristo. Leia os Evangelhos e veja quão amavelmente Ele se comportava para com os seus discípulos, os quais O abandonaram e negaram. ‘Vão, digam aos meus irmãos', diz Ele. Ele não diz, ‘vão digam àqueles traidores,' mas, ‘vão, digam aos meus irmãos e a Pedro'. E como se Ele houvesse dito, ‘Vão, digam aos meus irmãos em geral, e a Pedro em particular, que eu ressuscitei. Oh, confortem seu coração abatido. Digam-lhe que eu estou reconciliado com ele. Ordenem que ele não chore mais tão amargamente. Porque apesar de ter Me negado três vezes com juras e imprecações, ainda assim Eu morri pelos seus pecados; Eu ressuscitei novamente para sua justificação: Eu gratuitamente perdoei tudo.' Assim, lento para irar-Se e de grande benignidade, foi nosso todo misericordioso Sumo Sacerdote. E você pensa que Ele mudou Sua natureza e esqueceu-Se dos pobres pecadores, agora que foi exaltado à direita de Deus? Não! Ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre; e assentou-Se ali apenas para interceder por nós'.
‘Venham, portanto, vocês prostitutas; venham, vocês publicanos; venham, vocês pecadores abandonados, venham e creiam em Jesus Cristo. Embora o mundo inteiro os despreze e os expulse, ainda assim Ele não desdenhará tomá-los para Si. Oh, que amor surpreendente, que amor condescendente! Mesmo vocês, ele não se envergonhará de chamar Seus irmãos. Como escaparão vocês se negligenciarem tal oferta gloriosa de salvação? O que não dariam os espíritos condenados agora nas prisões do inferno, se Cristo lhes fosse tão graciosamente oferecido? E por que não estamos erguendo nossos olhos em tormentos? Qualquer pessoa entre esta grande multidão ousa dizer que não merece condenação? Por que somos deixados, enquanto outros são tomados pela morte? O que é isto senão um exemplo da livre graça de Deus, e um sinal da Sua boa vontade para conosco? Deixemos que a bondade de Deus nos guie ao arrependimento. Oh, haja alegria nos Céus, por alguns de vocês que se arrependam!'
FIM
*Traduzido por Paulo R. B. Anglada, a partir de J. C. Ryle, Christian Leaders of 18th. Century (reprint, Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1978), 149-79. Revisado por Cláudio Vilhena e Emir Bemerguy Filho.